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Memória: Ronan Tito, autor do Estatuto da Criança e do Adolescente

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Ronan Tito de Almeida (1931–2025) deixou uma marca profunda na política brasileira. Engajou-se no movimento das Diretas Já para escolha do presidente da República e sua atuação foi considerada decisiva na Assembleia Nacional Constituinte. No Senado, liderou a bancada do PMDB (hoje MDB) e foi autor do projeto que deu origem ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Sua trajetória foi marcada pelo compromisso com os mais vulneráveis. Tito destacou-se por discursos contundentes em defesa da justiça social, da democracia e dos direitos humanos.

Do interior ao Congresso

Nascido em Pratinha (MG), Ronan Tito iniciou a vida profissional como cobrador de ônibus, caminhoneiro e comerciário, experiências que moldaram a sua sensibilidade social. Mais tarde, tornou-se empresário e chegou a vice-presidente da Federação de Indústrias de Minas Gerais (FIEMG). Filiou-se ao MDB em 1972, durante a ditadura militar, foi eleito deputado federal em 1978 e reeleito em 1982. No Senado, exerceu mandato entre 1986 e 1995.

Desde os primeiros discursos, ele denunciava os efeitos sociais do regime militar. Em 1988, diante do agravamento da crise econômica herdada dos anos finais da ditadura, Tito fez um alerta sobre os riscos da hiperinflação e a passividade das instituições diante do problema. Cobrou um pacto nacional que enfrentasse a realidade sem excluir ninguém.

“A inflação todo dia bate recordes anteriores, e é inimaginável que continue a crescer sem que determinadas medidas sejam tomadas. Sem querer parecer dramático, sem querer exorbitar das funções de líder, devo dizer que chegou a hora: ou todos tomamos o pião na unha ou todos assumimos a nossa responsabilidade, ou todos partimos para um pacto, e um pacto nacional, em que ninguém seja excluído, em que todos sejam chamados — ou a inflação deverá ir, no mês que vem, para 35 ou 40%. Uma coisa que ainda não sei, senhores senadores, é qual o limite da resistência do povo brasileiro e até onde vai ‘pagar o pato’ calado”
Pronunciamento, 19 de outubro de 1988

Autor do ECA

A principal realização legislativa de Ronan Tito foi o projeto (PLS 193/1989) que deu origem ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A proposta consolidou a doutrina da proteção integral e reconheceu crianças e adolescentes como sujeitos plenos de direitos, alinhando a legislação brasileira à Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança.

Ao defender o texto no Plenário, Tito fez uma síntese do espírito da proposta:

“O Estatuto da Criança e do Adolescente é uma proposta moderna, consequente, humana e acima de tudo brasileira. Procura resgatar a dívida do Estado e da sociedade para com a infância e a juventude, reconhecendo que este é o segmento mais vulnerável da população e, por isso mesmo, aquele que deve merecer prioridade absoluta”
Pronunciamento, 13 de setembro de 1989

A proposta foi aprovada por unanimidade no Congresso e sancionada em 1990. Em 1991, o ECA foi reconhecido pela ONU como referência mundial em legislação de proteção à infância.

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Além do ECA, Tito também teve participação relevante na elaboração do Código de Defesa do Consumidor. Como coautor, apresentou uma das propostas que foram unificadas no texto final da lei, sancionada em 1990. Sua atuação ajudou a assegurar que os direitos do consumidor fossem tratados como garantia fundamental, em sintonia com o que havia sido recém-estabelecido pela Constituição de 1988.

Transição democrática

Ronan Tito foi um dos parlamentares mais ativos durante o processo de redemocratização. Em discurso, alertou que a consolidação democrática ainda exigiria esforço e vigilância.

“Estamos, neste momento, no início da pinguela. Não é uma ponte que nos está ligando ao regime democrático, é uma pinguela escorregadia, e muitos dos nossos — e, às vezes, até os melhores — com os seus atos de heroísmo, pensam que estão dando passos em direção à democracia, quando, na realidade, estão colocando pedras no caminho”
Pronunciamento, 26 de abril de 1989

Em meio à onda de greves nos anos 1980, defendeu a liberdade sindical e o direito de greve, mas também pediu responsabilidade e manifestou preocupação com ações extremas.

“Sempre lutei pelo direito de greve. Quando todos escolheram comissões que dariam grande publicidade [na Assembleia Constituinte], eu escolhi a Subcomissão da Ordem Social. Está lá registrada a minha luta por duas coisas: liberdade sindical e direito de greve. Mas não posso concordar com a ocupação de fábrica de encapuzados. Tenho certeza de que o trabalhador, brioso, brasileiro e corajoso, não se esconderia através de uma máscara. Está-me parecendo muito que o que se quer é aquilo que disse um líder da Cidade Industrial de Belo Horizonte: ‘Estamos precisando de um cadáver’. Pelo amor de Deus, chega de cadáveres”
Pronunciamento, 26 de abril de 1989

Despedida

Em 1990, Tito dedicou-se a uma campanha para o governo de Minas Gerais. Ficou apenas em quinto lugar, naquela que acabou sendo a sua última aventura eleitoral. Ele não buscou a reeleição para o Senado em 1994. Em 31 de janeiro de 1995, Ronan Tito subiu à tribuna para seu último pronunciamento como senador. Com tom emocionado e descontraído, agradeceu aos colegas, aos servidores e aos profissionais da taquigrafia da Casa, com quem sempre manteve relação próxima.

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“Quero agradecer aos colegas, aos funcionários da Casa, que me ajudaram – e muito – suprindo as minhas deficiências e permitindo assim que eu chegasse ao final do meu mandato da maneira que cheguei. Quero agradecer também a todos os taquígrafos. Muitos senadores não sabem, mas nós temos um contrato: eu falo errado, e eles sempre escrevem certo. Dessa forma, meu discurso passa a ter uma aparência melhor”
Pronunciamento, 31 de janeiro de 1995

A despedida rendeu uma série de apartes de senadores de diversos partidos, que exaltaram sua integridade, franqueza e compromisso com a democracia. Eduardo Suplicy (PT-SP) afirmou que, apesar das divergências, seus debates com Tito foram marcantes:

“Nos próximos quatro anos, quando estiver fazendo pronunciamentos aqui, pensarei que vossa excelência, se aqui estivesse, com certeza faria alguma observação sobre o assunto, como que a provocar-me. Mas, como é próprio do diálogo democrático, muitas vezes eu passava a ver outras situações em que antes não havia pensado. É neste sentido que o Senado Federal constitui lugar de grande enriquecimento mútuo”
Aparte de Eduardo Suplicy, 31 de janeiro de 1995

Outros senadores, como Josaphat Marinho, Ney Suassuna e Pedro Simon, também prestaram homenagens públicas, lembrando o humor, a firmeza e a coerência de Ronan Tito ao longo de seus mandatos. A despedida encerrou quase duas décadas de atuação parlamentar, marcada pela defesa intransigente da justiça social e pela postura crítica diante dos poderes instituídos.

“Gostaria de dizer que, verdadeiramente, em alguns momentos, exorbitei e peço esse perdão arrependido, mas não envergonhado. Devo dizer que, dos dezesseis anos que aqui estive no Congresso Nacional, tenho muito do que me arrepender, mas nada do que me envergonhar”
Pronunciamento, 31 de janeiro de 1995

Ronan Tito de Almeida
22/8/1931 – 10/4/2025

Mandatos

  • 1987-1995, MG

Bancadas

  • PMDB (1987–1995)

Cargos

  • Relator da CPMI da Soberania na Amazônia (1987)
  • Líder do PMDB (1988–1990)
  • Presidente da CPI da Evasão Fiscal (1991)

Projetos

  • Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), autor

Outros mandatos

  • Deputado federal MG: 1979-1983, 1983-1987

Outros cargos

  • Secretário do Trabalho de MG (1983-1985)
  • Presidente da Fundação Pedroso Horta, atual Fundação Ulysses Guimarães (1993-1995)

Vinícius Gonçalves, sob supervisão de Patrícia Oliveira

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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Minerais críticos: relatório amplia controle público, estabelece limites para exportações e cria incentivos fiscais

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O relator da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PL 2780/24 e apensados), deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), afirmou que seu parecer buscou agregar valor à cadeia produtiva evitando que o Brasil atue apenas como exportador de minerais críticos.

“Não nos sujeitaremos a ser exportadores de commodities minerais. Queremos processá-las, beneficiá-las, transformá-las aqui e agregar valor”, afirmou. Segundo ele, a ideia é estimular o beneficiamento e a transformação mineral e restringir a exportação de commodities minerais.

Jardim apresentou nesta segunda-feira (4) os principais pontos do texto que estabelece uma estratégia para a gestão desses bens minerais. A leitura do relatório e a votação devem ficar para esta terça-feira (5) já no Plenário, pois o projeto está com urgência.

O texto traz limitações à exportação de minerais brutos sem processamento e cria um sistema de incentivos fiscais progressivos. Ou seja, quanto mais a empresa avança nas etapas de beneficiamento dentro do Brasil, maiores os benefícios que recebe.

Segundo o autor da proposta, deputado Zé Silva (União-MG), há uma “força tarefa” para tentar aprovar o texto até a quarta (6).

“Acredito que o projeto está maduro e o Brasil precisa da aprovação do texto neste momento crítico que o mundo está passando. Temos condição, com uma política dessas, de nos estabelecer como segunda potência mundial na produção desses minerais”, declarou.

Incentivos fiscais
O parecer institui o programa que prevê créditos fiscais de até 20% dos valores pagos pelos projetos contemplados, com limite anual de R$ 1 bilhão entre 2030 e 2034 — totalizando R$ 5 bilhões no período. A concessão dos créditos terá percentual variável conforme o nível de agregação de valor promovido no país.

Segundo Jardim, a negociação dos incentivos fiscais foi o ponto mais difícil no diálogo com o governo. Ele afirmou que o texto final busca incentivar não apenas a extração, mas principalmente o beneficiamento e a transformação industrial dos minerais críticos.

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Conselho
A proposta também cria o Conselho Especial de Minerais Críticos e Estratégicos (CMCE) responsável por definir a lista de minerais estratégicos (revisada a cada quatro anos), classificar projetos prioritários e avaliar operações que possam ameaçar a segurança econômica ou geopolítica do país. Fusões, aquisições, entrada de capital estrangeiro e transferência de ativos minerais passarão por análise prévia do poder público.

“A visão que há no parecer é que deveríamos empoderar o poder público de instrumentos para orientar essa política. É o estado, em vez de provedor, mais regulador”, declarou, ao explicar porque o parecer não buscou criar uma nova empresa estatal para o setor.

O texto permite que o poder público estabeleça parâmetros, condicionantes e requisitos técnicos vinculados à exportação dos minerais, especialmente quando houver baixo grau de processamento.

Jardim afirmou que o texto não cria uma taxação direta, mas abre a possibilidade de o governo estabelecer imposto sobre exportação pontualmente para alguns minerais.

“Nenhum projeto de exploração vai se estabelecer aqui sem anuência prévia do governo. Se tiver uma mudança de controle acionário ou de comando de um determinado projeto ou alteração de seu processo, isso poderá ser revisto”, afirmou.

Fundo garantidor
O projeto cria um fundo garantidor da atividade mineral, com capacidade de até R$ 5 bilhões. A União participará com limite de R$ 2 bilhões e o fundo será administrado por uma instituição financeira federal.

Também poderão integrar o fundo empresas com receita vinda de pesquisa, lavra, beneficiamento e transformação de minerais críticos ou estratégicos no país.

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Pesquisa
O relatório também obriga as empresas exploradoras a aplicar anualmente parcela da receita bruta em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica (P&D). Nos primeiros seis anos, a obrigação é de 0,3% em P&D e 0,2% na integralização de cotas do fundo garantidor; após esse prazo, o mínimo passa a ser de 0,5% em P&D.

O texto cria ainda cadastro nacional, com registro obrigatório de projetos implementados no território nacional, unificando informações de órgãos federais, estaduais, municipais e distritais.

Terras raras x minerais críticos
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos que estão dispersos na natureza, o que dificulta a extração, sendo essenciais para turbinas eólicas, carros elétricos e sistemas de defesa, por exemplo (Veja infográfico abaixo).

Já os minerais críticos são aqueles essenciais para setores como energia limpa, eletrificação e defesa, com alta demanda global e riscos de fornecimento concentrados em poucos países — como lítio, cobalto e nióbio.

As terras raras podem ser consideradas minerais críticos dependendo do contexto, mas nem todo mineral crítico é uma terra rara.

Crítica
Entidades da sociedade civil presentes à apresentação dos principais pontos do texto criticaram a ausência do relatório final e o que classificaram como análise rápida do tema.

Jardim respondeu que o texto está em discussão há dois anos, teve urgência aprovada há 9 meses e já estaria pronto para votação no Plenário. Segundo o relator, a proposta traz ainda preocupação adequada com as comunidades locais e o licenciamento ambiental.

Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Geórgia Moraes

Fonte: Câmara dos Deputados

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