AGRONEGOCIOS
Ana Paula Lima vence na categoria Pesca Artesanal ou Aquicultura Indígenas
AGRONEGOCIOS
Neste ano, o Mulheres das Águas inaugura uma categoria para homenagear as mulheres indígenas que estão se destacando na pesca ou na aquicultura – afinal, não faltam iniciativas que promovem mais renda e de maneira sustentável entre os povos originários e as comunidades tradicionais.
E a primeira vencedora da nova categoria é Ana Paula Lima, uma mulher pescadora que luta pela manutenção da sociobiodiversidade e pela permanência do seu povo em seu território. Nascida no Rio Cuniuá, no município de Tapauá (AM), ela pertence ao povo Paumari, reconhecido como povo das águas.
Casada com um Paumari, Ana Paula é mãe de três filhos, que crescem acompanhando a rotina da pesca e do manejo dos peixes. Sua trajetória como liderança começou no espaço doméstico e comunitário, no qual precisou romper barreiras para afirmar-se como mulher indígena pescadora, que sonhava em atuar em articulações políticas. Com o tempo, passou a ocupar espaços coletivos e políticos, mesmo diante de ameaças e pressões por defender os lagos, o território e os direitos do povo Paumari.
Há mais de 15 anos, Ana Paula atua diretamente no manejo do pirarucu, participando da contagem, da pesca, da organização da logística e dos processos de decisão. Ela também representa as mulheres Paumari e integra o Coletivo do Pirarucu, defendendo a valorização do trabalho feminino em todas as etapas do manejo.
Tradição sustentável do povo Paumari
Os Paumari são historicamente pescadores, mergulhadores e guardiões dos lagos, vivendo entre várzeas, praias e igarapés da bacia do Rio Tapauá, onde se localizam as Terras Indígenas Paumari do Lago Manissuã, Paumari do Lago Paricá e Paumari do Cuniuá, demarcadas e homologadas entre 1997 e 1998. A pesca estrutura a vida das comunidades, oferecendo alimento, trabalho, cultura, organização social e relação espiritual com o território.
Por decisão coletiva, há mais de 20 anos, o povo Paumari adotou o manejo sustentável do pirarucu como estratégia central de defesa do território e da vida nos lagos. O manejo da espécie é fundamental para garantir a segurança alimentar das famílias, gerar renda de forma justa, fortalecer a organização comunitária e proteger os ecossistemas aquáticos. Mais do que uma atividade produtiva, o manejo representa o direito do povo de decidir sobre seu território, controlar o uso dos recursos naturais e assegurar a continuidade de seu modo de vida tradicional para as futuras gerações.
Nascida no Rio Cuniuá, Ana Paula cresceu imersa nesse modo de vida. Desde menina, aprendeu a pescar com caniço, a observar o tempo das águas, o comportamento dos peixes e o cuidado com os lagos. A pesca moldou seu cotidiano, seu corpo e seu pensamento, ensinando o valor do trabalho coletivo, do respeito aos ciclos da natureza e da responsabilidade com o território. Por parte materna, também, descende do povo Katukina, quase dizimado pela violência, e herda de sua avó a ancestralidade Paumari. Do lado paterno, carrega a força da população negra da região, tornando-se símbolo da resistência indígena e negra na Amazônia.
A atuação de Ana Paula acompanha todo o processo de recuperação dos estoques pesqueiros dos lagos Paumari. Em 2009, no início do monitoramento, foram registrados 268 pirarucus em 20 lagos. Em 2023, esse número alcançou 8.178 peixes monitorados em 60 lagos. Após cinco anos de proteção e manejo, os Paumari realizaram, em 2013, a primeira pesca oficial, com 50 indivíduos.
Em 2022, a pesca chegou a 650 peixes, totalizando 36 toneladas de pescado. Entre 2013 e 2022, foram comercializados aproximadamente 208 mil quilos de pirarucu, gerando cerca de R$ 1.400.000,00 em receita bruta. Desse total, 30% compõem o fundo coletivo do manejo, garantindo a continuidade da atividade e reduzindo a dependência de financiadores externos. A vigilância associada ao manejo contribuiu para a conservação de cerca de 98% do território Paumari.
Ana Paula integra equipe de gestão e de campo no manejo do pirarucu, participa da vigilância territorial e contribui diretamente para a recuperação dos estoques pesqueiros, uma conquista que devolveu abundância aos lagos e fortaleceu a segurança alimentar do povo Paumari. Sua atuação ajudou a consolidar resultados expressivos, como a comercialização de aproximadamente R$ 350 mil em peixes somente em 2025, assegurando que a renda seja repartida de forma justa, transparente e coletiva. O manejo sustentável tornou-se a principal estratégia do povo Paumari para conservar os lagos, proteger o território, valorizar o conhecimento tradicional e garantir renda sustentável.
Liderança política
Outro eixo central de sua atuação é o fortalecimento do trabalho das mulheres no manejo do pirarucu. Ana Paula atua para garantir a presença feminina nos espaços de decisão, planejamento e avaliação do manejo, reconhecendo que as mulheres são fundamentais em todas as etapas do processo: da vigilância territorial à organização da pesca, da logística de alimentação à evisceração do peixe, do monitoramento à transmissão dos conhecimentos tradicionais.
Como mulher indígena do povo Paumari, Ana Paula não atua de forma individual. Para o povo Paumari, não existe protagonismo isolado: a luta é coletiva, construída a partir das decisões do conjunto das comunidades. Ao longo de mais de 15 anos de atuação, Ana Paula contribui diretamente para o fortalecimento organizacional, territorial, produtivo e político do povo Paumari do Rio Tapauá, sempre a partir das decisões coletivas e do compromisso com a autonomia do território.
A liderança de Ana Paula contribui para a ampliação do reconhecimento político e econômico do trabalho das mulheres, para a garantia de condições dignas de participação, incluindo o cuidado com crianças, respeito às mulheres grávidas e mães e para a defesa da remuneração justa e igualitária no manejo.
Em 2022, assumiu a secretaria da Associação Indígena do Povo das Águas (AIPA) e, em 2025, foi eleita presidenta da instituição, fortalecendo a unidade entre as comunidades, o diálogo político e a defesa da pesca manejada como base da autonomia Paumari. Ela também representa as mulheres Paumari na Federação das Organização e Comunidades Indígenas do Médio Purus (FOCIMP), integrando o Departamento de Mulheres Indígenas do Médio Purus. A partir daí, ampliou o diálogo institucional com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), secretarias municipais e estaduais, instituições de ensino, órgãos ambientais e organizações parceiras.
Acompanhou a implantação e o aprimoramento de estruturas de pré-beneficiamento do pescado, a redução do tempo entre captura e conservação, o desenvolvimento de técnicas de abate com foco no bem-estar animal e pesquisas voltadas à melhoria da qualidade da carne. Participou ainda da articulação que integrou o manejo Paumari à marca coletiva Gosto da Amazônia, ampliando mercados e criando perspectivas de comercialização nacional e futura exportação.
Na área da educação, participou da condução de ações que resultaram na implementação do ensino médio dentro do território Paumari, garantindo, pela primeira vez, esse direito sem a necessidade de deslocamento dos jovens para áreas urbanas. Para isso, atuou em reuniões, negociações e articulações com o Conselho Estadual de Educação, secretarias municipais e estaduais e parceiros institucionais.
Ana Paula é fruto da resistência de gerações e do sonho ancestral do bem viver dos povos indígenas. Como mulher aldeada e liderança coletiva, mostra que é possível fortalecer o território de dentro, unindo sustentabilidade ambiental, economia comunitária, valorização cultural e cuidado com as águas. Sua vida afirma que o bem viver indígena é um caminho real, possível e urgente para a Amazônia.
Sobre o Mulheres das Águas – O prêmio foi criado em 2023 para reconhecer o trabalho de mulheres que se destacam na pesca e aquicultura, promovendo práticas sustentáveis e, principalmente, o empoderamento das mulheres que vivem das águas. Esta edição será realizada no dia 18 de março, no Teatro Nacional, em Brasília.
AGRONEGOCIOS
Safra recorde mantém frete agrícola em alta e fortalece demanda por transporte de grãos no Brasil
A expectativa de uma safra recorde de grãos continua impulsionando o mercado de transporte agrícola no Brasil. Mesmo após o encerramento do pico de escoamento da soja, os valores dos fretes rodoviários permanecem próximos dos níveis registrados entre fevereiro e março, período tradicionalmente marcado pela maior demanda logística.
Os dados constam na edição de junho do Boletim Logístico da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que aponta um cenário de aquecimento contínuo no transporte de produtos agrícolas, sustentado principalmente pela produção recorde de soja e pelo forte ritmo das exportações.
Produção histórica de soja sustenta demanda por transporte
De acordo com a Conab, o comportamento do mercado surpreende, já que o período pós-colheita normalmente é acompanhado por redução nas cotações do frete devido à menor necessidade de transporte.
Segundo o superintendente de Logística Operacional da Companhia, Thomé Guth, a oferta recorde da oleaginosa alterou essa dinâmica.
A produção de soja aumentou 8,8 milhões de toneladas em relação à safra anterior, mantendo elevada a necessidade de caminhões para o escoamento da produção e impedindo uma queda mais significativa nos preços do transporte rodoviário.
Mato Grosso lidera estabilidade em patamar elevado
Em Mato Grosso, maior produtor de grãos do país, as tarifas de frete apresentaram apenas pequenas oscilações em relação ao mês anterior.
Apesar da estabilidade, os preços continuam elevados e próximos aos registrados durante o auge da colheita, refletindo o intenso fluxo logístico para atender o escoamento da produção agrícola.
Mato Grosso do Sul e Distrito Federal registram pressão logística
No Mato Grosso do Sul, a demanda por transporte permaneceu firme mesmo após o encerramento da safra de verão.
A continuidade das exportações e o elevado volume de cargas destinadas aos mercados interno e externo sustentaram os preços do frete durante maio.
No Distrito Federal, a alta moderada dos valores foi impulsionada principalmente pelo custo do óleo diesel e pela sequência do transporte das safras de soja e milho produzidas na região Centro-Oeste.
Maranhão registra aumento dos fretes com avanço da colheita
No Maranhão, a Conab identificou elevação nos preços do transporte, impulsionada pelo avanço da colheita e pelo aumento da movimentação de cargas.
Em maio, a colheita da soja atingiu 92% da área cultivada, enquanto o milho alcançou 27% da área plantada.
A intensa movimentação rodoviária e ferroviária em direção ao Porto do Itaqui, tanto para abastecimento interno quanto para exportação, elevou os custos logísticos em aproximadamente 1,2% na comparação entre abril e maio.
Paraná mantém custos elevados nas principais rotas
No Paraná, os fretes apresentaram apenas variações pontuais, mas continuaram pressionados pelos custos operacionais.
Entre os principais fatores está o preço médio do diesel S-10, cotado em R$ 6,38 por litro, além da elevada concentração de cargas na malha rodoviária estadual.
Goiás, Bahia, Piauí e São Paulo registram desaceleração
Em sentido oposto, Goiás e Bahia apresentaram redução temporária da demanda por transporte.
O cenário reflete a conclusão da colheita da soja e o intervalo até o início da comercialização do milho de segunda safra, reduzindo momentaneamente a necessidade de fretes.
No Piauí, a queda das exportações de soja, que recuaram 22% em relação ao mês anterior, também contribuiu para a redução dos preços praticados.
Em São Paulo, os fretes seguiram em trajetória de queda após as altas registradas no início do ano. A redução foi favorecida pelo recuo no custo do diesel e pela menor demanda da indústria, mesmo com o agronegócio mantendo ritmo aquecido.
Exportações de milho e soja seguem em alta
O Boletim Logístico também destaca o desempenho das exportações brasileiras.
Entre janeiro e maio de 2026, o Brasil embarcou 7,5 milhões de toneladas de milho, volume superior às 6,1 milhões de toneladas registradas no mesmo período do ano anterior.
Os portos do Arco Norte responderam por 33,5% das exportações de milho, seguidos por Santos (26,5%), Rio Grande (19,5%) e Paranaguá (9,6%).
Já as exportações de soja somaram 55,1 milhões de toneladas no acumulado do ano.
O Arco Norte concentrou 38,5% dos embarques da oleaginosa, enquanto o Porto de Santos respondeu por 36,8%. Paranaguá participou com 14,2% e São Francisco do Sul movimentou 4,5% do volume exportado.
Importações de fertilizantes recuam e preocupam mercado
O levantamento da Conab também aponta desaceleração nas importações brasileiras de fertilizantes.
Entre janeiro e maio deste ano, o país internalizou 15,05 milhões de toneladas, abaixo das 15,27 milhões registradas no mesmo intervalo de 2025.
Segundo a Companhia, o mercado continua atento aos elevados preços dos fertilizantes, às incertezas geopolíticas envolvendo o Oriente Médio e aos possíveis impactos climáticos do fenômeno El Niño, que pode intensificar temperaturas e alterar o regime de chuvas no segundo semestre, aumentando os riscos para a produção agrícola mundial.
Além da análise dos fretes, o Boletim Logístico reúne informações sobre exportações, importações de insumos e a movimentação dos estoques públicos administrados pela Conab por meio de transportadoras contratadas em leilões eletrônicos.
Boletim Logístico – Junho/2026
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio


