POLITÍCA NACIONAL
Especialistas defendem formação de motoristas com foco em comportamento e risco
POLITÍCA NACIONAL
Especialistas em segurança viária defenderam nesta quarta-feira (25) que a formação de motoristas no Brasil tenha como foco o comportamento humano e a percepção de riscos, e não simplesmente regras de trânsito e técnicas de direção. O debate foi promovido pela comissão especial da Câmara dos Deputados que analisa o Projeto de Lei 8085/14 e outras 270 propostas que alteram o Código de Trânsito Brasileiro (CTB).
Relator na comissão, o deputado Aureo Ribeiro (Solidariedade-RJ) perguntou aos cerca de 20 debatedores como o Brasil poderia aplicar, no início da formação de novos motoristas, o conceito de “Visão Zero” – estratégia global de segurança que considera inaceitável qualquer morte ou lesão grave no trânsito. Ribeiro disse que busca um modelo alternativo de aprendizado que atenda às metas de segurança da ONU para o trânsito.
“O atual processo de formação brasileiro contribui para essas metas ou é um entrave? Como inserir o conceito de Visão Zero já no primeiro dia de aula do candidato à CNH [Carteira Nacional de Habilitação]?”, questionou o relator.
Comportamento
Paulo Guimarães, do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), disse que o modelo brasileiro é ineficaz por priorizar habilidades mecânicas e ignorar a capacidade do motorista de perceber riscos e tomar decisões seguras. Segundo Guimarães, o comportamento dos motoristas é a principal causa das mais de 37 mil mortes anuais no trânsito brasileiro.
Sobre o conceito de Visão Zero, Guimarães sugeriu que ele seja ensinado desde a escola. “Mais do que decorar placas, as crianças devem aprender conceitos de cidadania, responsabilidade e respeito ao próximo”, disse.
Professor da Universidade de Brasília (UnB), Paulo César da Silva destacou que o comportamento dos condutores responde por cerca de 90% das ocorrências de trânsito. Ele propôs que o país seja mais rigoroso na habilitação e encare o sistema viário como um ambiente social. “A banalização da vida não se dá só no trânsito. Nossa sociedade banaliza a vida, a cidadania e o respeito ao outro”, alertou.
Silva destacou ainda que o ensino deve considerar como as pessoas reagem ao local onde dirigem. “Existe uma relação entre o aspecto comportamental e o aspecto ambiental. Esse é um princípio a ser adotado em qualquer processo de formação.”
Formação na escola
Na mesma linha, o vice-presidente do Instituto Nacional de Projetos para Trânsito e Segurança (Inprotran), Francisco Garonce, sugeriu incluir a formação para o trânsito no ensino médio. A ideia é tratar o tema como um conhecimento técnico e prático, diferente da educação para o trânsito feita no ensino fundamental. “As regras de trânsito não são naturais do ser humano; elas precisam ser ensinadas para que o jovem desenvolva habilidades reais de percepção de riscos”, explicou. Garonce criticou ainda a visão de que os centros de formação são apenas um “pedágio” obrigatório para obter a CNH.
Autoescolas
A presidente da Associação de Trânsito de Santa Catarina (Atraesc), Yomara Ribeiro, posicionou-se contra a recente flexibilização do processo de obtenção da CNH. Ela classificou as propostas como um “discurso populista e eleitoreiro” que ignoram a realidade e disse que, sem o controle das autoescolas e dos instrutores credenciados, o aluno assume sozinho o risco. “Qual é o tipo de trânsito que nós queremos: um trânsito mais barato ou mais seguro?”, questionou.
Novas regras
Em 2026, o processo de formação de condutores no Brasil passou por grande mudança. A Resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) 1.020/25 teve como foco a redução de custos e a digitalização. As principais alterações incluem o fim da obrigatoriedade de autoescolas, a oferta de curso teórico em formato digital e a redução da carga mínima de aulas práticas. A norma também amplia a digitalização dos serviços e busca simplificar o processo de habilitação.
Presidente da Federação Nacional das Autoescolas, Ygor Valença sugeriu um Plano Nacional de Formação de Condutores para padronizar o ensino e evitar que decisões sobre o trânsito sejam tomadas por interesses políticos. Em vez de apenas contar horas de aula, Valença defende que o aluno comprove que domina manobras essenciais, como trocas de faixa e ultrapassagens. “Carga horária, com 20, 40 horas, é ruim para o cidadão, ninguém quer. Agora, se eu coloco um checklist para que ele comprove o que ele faz, eu estou preparando uma pessoa para ser motorista”, disse.
Reportagem – Murilo Souza
Edição – Ana Chalub
Fonte: Câmara dos Deputados
POLITÍCA NACIONAL
Especialistas alertam para vício em jogos entre idosos e pedem regulação de publicidade das bets
Participantes de audiência pública realizada nesta quarta-feira (20) por duas comissões da Câmara alertaram para o crescimento da ludopatia — o vício em jogos — entre idosos e a necessidade de regulação urgente da publicidade das plataformas.
O avanço das plataformas de apostas online, conhecidas como bets, está gerando graves impactos financeiros, sociais e de saúde pública para a população idosa no Brasil. O alerta foi feito por especialistas e representantes do governo federal durante audiência pública conjunta das comissões de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial e de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa da Câmara dos Deputados.
O debate atendeu a requerimentos de autoria de diversos parlamentares, entre eles o deputado Luiz Couto (PT-PB). Durante a reunião, participantes apontaram que a facilidade do Pix e o acesso digital direto às contas de aposentadoria têm facilitado o superendividamento desse público.
Luiz Couto destacou que os alertas servem de subsídio para a análise de projeto de sua autoria voltado a resguardar a dignidade financeira dos idosos.
“Nós temos aí o Projeto de Lei 4466/24, que estabelece regras para proteger as pessoas idosas contra o vício de apostas, que muito acontece e os deixa sem nada”, afirmou o parlamentar.
Segundo ele, a análise do projeto na Comissão de Direitos Humanos reforça a proteção contra a perda de direitos essenciais.
“São direitos humanos que muitas vezes são retirados das pessoas idosas”, pontuou.

Superendividamento
A defensora pública federal Thaíssa Assunção de Faria, integrante do grupo de trabalho de atendimento à pessoa idosa e à pessoa com deficiência da Defensoria Pública da União (DPU), explicou que a ludopatia é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental. O vício atua no sistema de recompensa do cérebro por meio da liberação de dopamina.
“O vício em apostas online já é considerado o terceiro maior vício do país, atrás apenas do tabagismo e do alcoolismo”, alertou a defensora. Ela explicou que o problema está diretamente ligado ao fenômeno do superendividamento, que retira o “mínimo existencial” dos cidadãos.
De acordo com Thaíssa, as empresas enxergam as pessoas idosas como um público-alvo valioso devido à garantia da renda fixa de aposentadorias ou do Benefício de Prestação Continuada (BPC), o que facilita a obtenção de empréstimos consignados abusivos para cobrir as perdas nos jogos.
“Não estamos falando de dinheiro de sobra. Estamos falando de desvios de recursos vitais originariamente destinados para medicamentos, alimentação e moradia”, criticou a defensora.
Ela acrescentou que o sentimento de vergonha pelo colapso financeiro faz com que as vítimas escondam o vício, agravando quadros de ansiedade severa e depressão.
Violência patrimonial silenciosa
A coordenadora-geral de política do direito da pessoa idosa em situação de vulnerabilidade e discriminação múltipla do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Paula Érica Batista, caracterizou a atuação das bets sobre esse público como uma forma de violência patrimonial e financeira (veja no infográfico abaixo).
“As bets trazem uma perspectiva muito violenta e muito silenciosa, porque adentram um universo tecnológico que muitas vezes as políticas públicas não conseguem acessar”, explicou a coordenadora.
Ela apresentou dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos que registrou, de janeiro a maio de 2026, 17.690 denúncias de violência patrimonial e financeira contra pessoas idosas de 60 a 90 anos, resultando em 17.880 violações.
Como resposta, Paula Érica destacou as ações do programa federal Viva Mais Cidadania Digital. O projeto promove o letramento digital e a educação midiática em territórios vulneráveis para ensinar idosos a identificar riscos, golpes e o funcionamento dessas plataformas. O ministério também disponibiliza em seu site oficial uma cartilha de orientação e enfrentamento à violência financeira.
Estratégias de proteção social
Representando o Ministério do Desenvolvimento Social, a especialista em envelhecimento Daniela Jinkings defendeu que o problema não pode ser tratado como uma escolha individual, mas sim como uma questão intersetorial de proteção social.
Ela sugeriu quatro frentes principais de atuação pública:
- fortalecer os mecanismos regulatórios sobre a publicidade agressiva das bets, que associa os jogos ao sucesso financeiro e à felicidade;
- desenvolver estratégias de educação financeira e digital com linguagem adaptada;
- capacitar profissionais do Sistema Único de Assistência Social (Suas) e do Sistema Único de Saúde (SUS) para identificar os sinais do uso problemático de jogos nos atendimentos territoriais (como nos Cras, Creas e UBS); e
- fortalecer políticas de convivência comunitária para combater a solidão e o isolamento social, fatores que aumentam a busca pelas plataformas.
“Muitas vezes, o que começa como entretenimento evolui para o endividamento. As plataformas vendem a ilusão de pertencimento, de diversão e de ganho fácil”, alertou Daniela.
Ações na saúde pública
O coordenador-geral da Rede de Atenção Psicossocial do Ministério da Saúde, Bruno Ferrari, apontou que o Brasil vive as consequências de um hiato regulatório de cinco anos, período entre a legalização das apostas (em 2018) e a primeira regulamentação (em 2023), no qual o mercado de marketing expandiu-se sem restrições. Ele informou que o ministério passou a tratar o tema formalmente como um problema de saúde pública.
Bruno destacou dados do Ministério da Saúde: das pessoas que buscam atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) por problemas relacionados a jogos, cerca de 4% são pessoas idosas. Já nos serviços de urgência, emergência ou internações hospitalares decorrentes do vício, essa população representa cerca de 7% dos casos.
Como resposta pública, o coordenador destacou a criação de uma linha de cuidado específica e o lançamento de um guia de orientação para trabalhadores da saúde. Além disso, informou que a plataforma centralizada de autoexclusão das plataformas de apostas registrou quase 220 mil adesões em seus primeiros 40 dias de funcionamento, direcionando os usuários que desejam suporte para o atendimento digital de telessaúde integrada ao SUS.
Da Redação – GM
Fonte: Câmara dos Deputados
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