CUIABÁ
Pesquisar
Close this search box.

AGRONEGOCIOS

Dependência de ureia expõe agronegócio brasileiro a tensão entre EUA e Irã

Publicados

AGRONEGOCIOS

A escalada de tensões no Oriente Médio reacende um ponto sensível para o agronegócio brasileiro: a forte dependência externa de fertilizantes nitrogenados, especialmente a ureia. O insumo é peça central na adubação de culturas como milho, soja e trigo e responde por parcela relevante dos custos de produção no campo.

O Irã ocupa posição estratégica nesse tabuleiro. Além de ser o 11º principal destino dos produtos agropecuários brasileiros, o país é um importante fornecedor de ureia ao Brasil. Dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, mostram que, em 2025, as importações brasileiras de produtos agrícolas iranianos somaram o equivalente a cerca de R$ 420 milhões. Desse total, aproximadamente R$ 330 milhões referem-se apenas à ureia, com volume próximo de 184,7 mil toneladas.

Embora não esteja entre os três maiores fornecedores do insumo ao Brasil — posto ocupado por Nigéria, Omã e Catar — o Irã figura entre os maiores exportadores globais de ureia. Em um mercado altamente integrado, qualquer restrição logística, sanção econômica ou instabilidade política na região tende a pressionar preços internacionais.

A preocupação não se limita ao lado das importações. O Irã foi, em 2025, o principal comprador de milho brasileiro. Foram 9 milhões de toneladas embarcadas, volume equivalente a cerca de 23% de tudo o que o Brasil exportou do cereal no período. O produto abastece a indústria iraniana de proteína animal, especialmente a cadeia de frango, uma das maiores da Ásia.

Ou seja, a relação é de interdependência: o Brasil vende milho e compra ureia. Uma deterioração nas relações diplomáticas ou restrições comerciais decorrentes de um eventual conflito envolvendo Estados Unidos e Irã poderiam afetar tanto a demanda pelo grão brasileiro quanto o suprimento de insumos ao campo.

Leia Também:  Clima irregular e solo seco exigem atenção redobrada no início da safra 2025/26

O principal canal de transmissão de risco é o preço. Uma redução na oferta global de ureia ou dificuldades logísticas no Golfo Pérsico tendem a elevar as cotações internacionais. Como o mercado brasileiro é amplamente importador, o repasse ao produtor costuma ser rápido.

Além disso, o encarecimento do gás natural em cenários de conflito pode elevar o custo de produção do fertilizante em diferentes países, ampliando o efeito inflacionário.

No caso do milho, eventual retração das compras iranianas exigiria redirecionamento de volumes para outros mercados, possivelmente com ajuste de preço para manter competitividade.

Papel estratégico da ureia – “Esse cenário funciona como um alerta claro para o agronegócio brasileiro. Somos altamente competitivos na produção e exportação de grãos e proteínas, mas ainda dependemos de forma excessiva de insumos estratégicos importados, como a ureia. Qualquer instabilidade geopolítica pode afetar diretamente o custo de produção no campo”, lembra Isan Rezende (foto), Presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT).

“O Brasil precisa tratar a segurança no abastecimento de fertilizantes como tema estrutural, não conjuntural. Não se trata apenas de preço momentâneo, mas de previsibilidade. O produtor rural trabalha com planejamento de safra, e volatilidade extrema no custo dos nitrogenados compromete decisões de investimento, área plantada e tecnologia aplicada”.

Leia Também:  Preço do arroz em casca cai e pressiona valores no beneficiado e no varejo, aponta Cepea

“É fundamental avançar na diversificação de fornecedores e, principalmente, na retomada da capacidade nacional de produção de fertilizantes nitrogenados. O País dispõe de mercado consumidor robusto e potencial energético que pode sustentar esse movimento. Reduzir a dependência externa é uma estratégia de soberania produtiva”, afirma Rezende.

“Enquanto o cenário internacional permanece incerto, o setor precisa reforçar mecanismos de gestão de risco, contratos antecipados e planejamento logístico. O agro brasileiro já demonstrou resiliência em outras crises globais, mas é preciso transformar essa experiência em política permanente de proteção ao produtor e à segurança alimentar”, comentou Isan.

A ureia é a principal fonte de nitrogênio utilizada na agricultura brasileira. O nutriente é essencial para o desenvolvimento vegetativo das plantas e impacta diretamente produtividade e teor de proteína dos grãos.

O Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes que consome, segundo dados do Ministério da Agricultura. No caso específico dos nitrogenados, a dependência externa é ainda mais elevada, reflexo do fechamento de fábricas nacionais nos últimos anos e da competitividade de produtores internacionais com acesso a gás natural a preços mais baixos — principal matéria-prima da ureia.

Em culturas como o milho, o fertilizante nitrogenado pode representar parcela significativa do custo operacional por hectare. Em momentos de alta abrupta nas cotações internacionais, como ocorreu após o início da guerra no Leste Europeu, o impacto se traduz em compressão de margens e, em alguns casos, redução de área plantada ou de doses aplicadas.

Fonte: Pensar Agro

COMENTE ABAIXO:
Propaganda

AGRONEGOCIOS

Uso de satélite para barrar crédito rural gera novo debate no setor

Publicados

em

A nova regra que condiciona o acesso ao crédito rural ao monitoramento ambiental por satélite abriu uma frente de tensão entre produtores, Congresso e governo federal. Desde 1º de abril, bancos que operam recursos do Plano Safra passaram a consultar automaticamente dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes) antes da liberação dos financiamentos agropecuários.

O centro da discussão está nos chamados “falsos positivos”, situações em que alterações na cobertura vegetal identificadas pelo sistema acabam sendo interpretadas como desmatamento irregular, mesmo quando decorrem de atividades produtivas permitidas ou manejos regulares dentro da propriedade.

Segundo a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), produtores vêm relatando dificuldades para acessar crédito em casos envolvendo limpeza de pastagem, manejo agrícola, renovação de áreas produtivas e até colheita de florestas plantadas, como eucalipto.

A preocupação do setor é que o sistema utilizado para monitoramento identifica mudanças na vegetação, mas não consegue, sozinho, diferenciar imediatamente uma atividade legal de um desmatamento irregular.

Com isso, o bloqueio ao crédito pode ocorrer antes mesmo de qualquer análise individualizada do caso. Isso inverte o ônus da prova e  obriga o produtor a comprovar posteriormente que a alteração apontada pelo satélite não configura infração ambiental. O processo pode envolver laudos técnicos, documentos fundiários, análises ambientais e procedimentos administrativos que levam semanas ou meses.

Leia Também:  Preço do arroz em casca cai e pressiona valores no beneficiado e no varejo, aponta Cepea

O problema ganha peso porque o crédito rural continua sendo peça central do financiamento agropecuário brasileiro, especialmente em um momento de juros elevados, aumento do endividamento e custos ainda pressionados.

Dados citados pela consultoria Datagro mostram que mais de 5,4 milhões de apontamentos positivos estavam registrados no sistema Prodes até outubro de 2025. Parte dessas ocorrências, segundo o setor, pode estar associada justamente a interpretações equivocadas do monitoramento remoto.

As novas exigências estão previstas nas Resoluções nº 5.193/2024 e nº 5.268/2025, do Conselho Monetário Nacional (CMN), dentro do processo de endurecimento das regras ambientais para concessão de crédito rural.

A justificativa oficial é impedir que propriedades com irregularidades ambientais tenham acesso a recursos públicos subsidiados.

O avanço das restrições provocou reação imediata no Congresso Nacional. Parlamentares ligados à Frente Parlamentar da Agropecuária protocolaram projetos para suspender os efeitos das resoluções até que sejam criados mecanismos considerados mais precisos de validação ambiental.

As propostas também tentam impedir embargos automáticos baseados exclusivamente em imagens de satélite e estabelecer critérios técnicos mais claros para restrições ao financiamento rural.

Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende (foto), o principal problema está na automatização do processo sem análise técnica prévia. “O monitoramento ambiental é necessário e irreversível. O problema começa quando um apontamento preliminar feito por satélite passa a produzir efeito imediato sobre o crédito sem uma verificação individualizada da situação da propriedade”, afirma.

Leia Também:  Nutec desenvolve embalagens comestíveis e biodegradáveis para ampliar conservação de alimentos

Segundo Rezende, a insegurança aumenta porque o produtor depende do financiamento para manter o calendário agrícola e não consegue esperar meses por uma solução administrativa. “O crédito rural não financia apenas expansão. Ele financia custeio, compra de insumos, operação da safra e fluxo de caixa da propriedade. Quando o recurso trava por causa de um possível falso positivo, o impacto econômico acontece imediatamente dentro da porteira”, diz.

Ele avalia que o avanço das exigências ambientais tende a se intensificar nos próximos anos, principalmente pela pressão de bancos, mercados importadores e sistemas internacionais de rastreabilidade.

“A questão ambiental passou a fazer parte da análise de risco do crédito rural. Isso já não é mais uma discussão apenas regulatória. O produtor vai precisar cada vez mais de documentação organizada, regularidade ambiental e segurança jurídica para acessar financiamento e mercado”, afirma.

O episódio evidencia uma mudança estrutural no agro brasileiro. Critérios ambientais deixaram de afetar apenas fiscalização e passaram a interferir diretamente na capacidade de financiar produção, renegociar dívidas e manter competitividade no mercado internacional.

Fonte: Pensar Agro

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

CUIABÁ

POLÍCIA

POLÍTICA MT

MATO GROSSO

MAIS LIDAS DA SEMANA