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Dia dos Pescadores: navegando na cultura da pesca artesanal
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Elaine Barreto acorda bem cedo pela manhã e se ajeita para a lida. Com o balde e o facão nas mãos, ela percorre o caminho até o mangue para tirar sutinga e sururu. Moradora do povoado Taiçoca de Fora, em Nossa Senhora do Socorro/Sergipe, ela representa a força das marisqueiras que enfrentam as adversidades e os desafios diários da vida pesqueira.
“Ser marisqueira é ter dignidade e orgulho de ser pescadora artesanal. A nossa busca por melhorias começa quando subimos no barco e entramos nas águas. O rio representa a nossa vida e a possibilidade de ter o prato na mesa. A mãe maré é a porta de oportunidade, por isso devemos respeitar e valorizar”, conta.
Já Seu Raul, da cidade de São Sebastião da Boa Vista/Pará, é pescador desde criança e conhece os mistérios dos rios. Ele relata que com sua rede e seu barco, navega em busca da liberdade. “No meu município, a criança com quatro anos vai pro lado da canoa e enquanto não embarcar ela não sossega, faz o escarcéu. A pesca artesanal vive nas entranhas de qualquer marajoara”, apresenta.
A atividade profissional da pesca envolve práticas e saberes próprios. O pescador e a pescadora artesanal conhecem bem a natureza e os segredos do mar e do rio, sabem as fases da Lua e os caminhos dos peixes. No quesito economia, eles fazem arte para ganhar o pão de cada dia.
Praticada por mais de 1,6 milhão de pessoas, os povos da pesca cumprem com o valioso papel de levar à mesa dos brasileiros mais de 60% do pescado consumido, garantindo o sustento para suas famílias e alimentos saudáveis para as mesas da população.
Além dessa importância para a alimentação de muitos lares, esses povos também impulsionam expressões artísticas e socioculturais em seus territórios, como a música e a comunicação comunitária.
Sururu e samba
As mãos que nos mangues ficam cobertas de lama ao catar o sururu, são as mesmas que tocam instrumentos e batem palmas no Samba de Coco – Taiçoca de Fora, em Sergipe. Elaine nos conta que muitas marisqueiras de sua comunidade participam do grupo musical histórico, que valoriza a cultura negra em suas músicas e danças.
Confira no vídeo o que Elaine diz sobre o samba de coco de sua comunidade:
O Pescador no Ar
Seu Raul espalha a voz dos pescadores em rádios comunitárias da cidade na ilha de Marajó, no Pará. Ele, que começou a produzir comunicação em 2006, diz que estimula as tradições populares em seus programas.
Veja vídeo de Seu Raul contando sua história com as rádios comunitárias:
Saberes e culturas das águas
Na área cultural, o MPA vem apostando em projetos que valorizam os saberes tradicionais e os modos de vida das comunidades que vivem da pesca. Ações como saberes das águas vem possibilitando que experiências pesqueiras se conectem com arte e cultura, como a produção de biojoias com escamas de peixe, na vila de Jubim, em Marajó (PA), e as oficinas de audiovisual e comunicação, em Abreu do Una (PE).
Além disso, o eixo sobre cultura e identidade pesqueira artesanal ganhou destaque nas plenárias regionais de construção do Plano Nacional da Pesca Artesanal (PNPA), que aconteceram em todas as regiões do país, e mobilizaram pescadores e pescadoras artesanais, pesquisadores, gestores públicos e entidades que apoiam a pesca artesanal.
O secretário Nacional da Pesca Artesanal, Cristiano Ramalho, afirma que de Norte a Sul do país, vemos diversas manifestações culturais ligadas à pesca. “São expressões que envolvem cantos, danças, artes de pesca e conhecimentos. É impossível pensar a pesca somente como atividade econômica, ela é mais do que isso, é um patrimônio cultural e um modo de vida que estão enraizadas em seus territórios”.
“Com base nisso, em parceria com o Ministério da Cultura (MINC), estamos construindo dois editais voltados às culturas pesqueiras artesanais do Brasil para todo território nacional. Um está previsto para o segundo semestre deste ano e outro, para o próximo ano. Neles, estaremos apoiando organizações da sociedade civil que atuam e defendem as manifestações culturais nas comunidades”, finaliza.
Confira aqui outras ações voltadas aos pescadores e pescadoras artesanais.
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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro


