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Governo intensifica articulação com o agro para enfrentar tarifa dos EUA e expandir mercados

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Negociações ampliadas com participação do agronegócio

Em entrevista coletiva após a segunda rodada de reuniões com representantes do setor produtivo, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, afirmou que o governo brasileiro adotará com o agronegócio a mesma estratégia utilizada com a indústria para enfrentar as tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos.

O plano inclui diálogo direto com autoridades norte-americanas e interlocução entre empresários brasileiros e seus pares nos EUA para demonstrar os impactos negativos da medida — tanto para o Brasil quanto para o mercado americano. Destaque também para o pedido de ampliação de prazo para entrada em vigor da tarifa, especialmente para o setor agropecuário, que lida com produtos perecíveis.

Agenda de reuniões continua

Alckmin destacou que os encontros com o setor produtivo vão continuar nos próximos dias. “Amanhã falaremos com a Amcham, indústria química, confederações, empresas de software de origem americana e centrais sindicais. Essas conversas seguem ativas”, afirmou.

O vice-presidente também lembrou que mantém diálogo com representantes do governo dos EUA, como o encarregado da Embaixada Americana, Gabriel Escobar, o secretário de Comércio Howard Lutnick e o embaixador Jamieson Greer, do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR).

Governo aposta em diálogo e na Lei de Reciprocidade

Alckmin reforçou que o governo brasileiro está empenhado em reverter a tarifa norte-americana. “Temos o decreto e o comitê instalados para ouvir o setor produtivo. Ainda temos alguns dias para tentar mudar esse cenário, que não faz sentido econômico ou comercial e prejudica tanto o Brasil quanto os Estados Unidos”, afirmou.

MAPA defende expansão de mercados e diplomacia ativa

O ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, também participou da reunião e defendeu a ampliação dos mercados internacionais como resposta à taxação. Segundo ele, o governo federal já abriu 393 novos mercados para produtos do agronegócio brasileiro, com forte apoio da diplomacia presidencial.

Fávaro mencionou a evolução das exportações de carne bovina para os EUA, que passaram de 220 mil toneladas para 196 mil apenas nos primeiros seis meses de 2025, com projeção de alcançar 400 mil toneladas até o final do ano.

Ele ressaltou que, mesmo diante da gravidade da situação, o governo atuará com firmeza: “Vamos intensificar a busca de alternativas, mas sabemos que não será possível, em 10 ou 15 dias, redirecionar toda a produção destinada aos EUA. O diálogo será conduzido com soberania e altivez.”

Representantes do agro manifestam preocupação e cobram ações

Durante o encontro com o governo, representantes de diversos segmentos do agronegócio expressaram preocupações quanto aos impactos da tarifa e pediram prorrogação da medida.

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Setor de carnes

Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), destacou que a taxação torna inviável a exportação de carne bovina aos EUA, segundo maior comprador do produto brasileiro, atrás apenas da China.

“Temos cerca de 30 mil toneladas a caminho dos EUA, equivalentes a US$ 160 milhões, já em produção ou em trânsito. O impacto pode atingir uma cadeia que emprega milhões de brasileiros”, afirmou.

Perosa sugeriu a prorrogação da tarifa para evitar o cancelamento de contratos em andamento. Ele lembrou que o Brasil complementa a produção americana — atualmente no menor ciclo pecuário em 80 anos — com cortes bovinos usados na produção de hambúrguer, como o dianteiro do boi.

“Já pagamos 36% de tarifa. Com mais 50%, se torna impossível manter as exportações. E o preço do hambúrguer nos EUA certamente vai subir”, completou.

Exportadores de café alertam para impacto inflacionário

O presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Marcio Cândido, ressaltou que os EUA são o maior consumidor global de café e importaram 8,2 milhões de sacas brasileiras em 2024.

“O café brasileiro representa 33% de todo o consumo norte-americano. E como não é produzido nos EUA, essa tarifa só servirá para inflacionar o produto lá”, disse.

Cândido elogiou o convite do governo para o diálogo e ressaltou que a solução será construída em conjunto: “Estive 30 dias na Ásia com o governo e acredito que vamos encontrar um caminho benéfico para todos.”

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O presidente da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), Pavel Cardoso, também enfatizou a necessidade de um acordo comercial equilibrado: “Há um sentimento comum do setor para que essa situação seja resolvida rapidamente, preservando a relação comercial histórica entre Brasil e EUA.”

Produtores de suco de laranja em alerta

Ibiapaba Neto, presidente da CitrusBR, destacou que 40% das exportações de suco de laranja têm como destino os EUA, que movimentaram US$ 93 bilhões em 2024.

Ele alertou que a tarifa de 50%, somada aos US$ 515 por tonelada já pagos pelo setor, pode inviabilizar as vendas.

“A safra está apenas começando. Não sabemos se nosso segundo maior mercado será mantido. Agradecemos o apoio dos ministros Alckmin e Fávaro, mas a preocupação é grande.”

Fruticultura teme perdas na safra de manga

Guilherme Coelho, presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), afirmou que a safra da manga para os EUA começa em 1º de agosto e envolve 2,5 mil contêineres da fruta.

“Esse planejamento envolve embalagens, reservas em navios e acordos com supermercados. Não há logística para redirecionar essa carga para a Europa ou para o Brasil. O impacto será desastroso”, advertiu.

Segundo ele, o setor já sofreu com uma taxação de 10% e, agora, com os 50%, a exportação se tornará inviável: “Esperamos que os alimentos fiquem fora da nova tarifa.”

Diálogo permanece aberto

O governo federal segue articulando com representantes do agronegócio, da indústria e autoridades norte-americanas para tentar reverter ou adiar a tarifa de 50% que entra em vigor em 1º de agosto. O foco está na defesa da produção nacional, preservação de empregos e busca por alternativas que garantam o escoamento da safra, especialmente de produtos perecíveis. A diplomacia e a pressão conjunta com o setor privado seguem como as principais apostas do Brasil para enfrentar esse desafio comercial.

Fonte: Portal do Agronegócio

Fonte: Portal do Agronegócio

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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia

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A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.

O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.

Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.

O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.

Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.

A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.

A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.

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Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.

Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.

A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.

Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.

No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.

Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.

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A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.

O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.

A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.

O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.

Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.

Fonte: Pensar Agro

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