AGRONEGOCIOS
Paraná fortalece agricultura familiar no Vale do Ivaí com entrega de barracão e estrutura para produção de ovos
AGRONEGOCIOS
Investimento impulsiona cooperativas do Vale do Ivaí
O Governo do Paraná, por meio do Sistema Estadual de Agricultura, entregou nesta quinta-feira (10) um conjunto de melhorias para duas organizações do Vale do Ivaí: a Cooperativa de Comercialização Camponesa Vale do Ivaí (Cocavi), de Jardim Alegre, e a Associação de Produtores Rurais de Lunardelli (Lunaprol). Os investimentos, que superam R$ 664,8 mil, são do Programa Coopera Paraná e têm como objetivo ampliar a capacidade produtiva e estrutural dessas entidades.
Nova estrutura para produção de ovos caipiras e orgânicos
Em Jardim Alegre, foi inaugurada a agroindústria de classificação de ovos, instalada em um terreno urbano doado pela prefeitura à Cocavi. O projeto, que recebeu R$ 429,4 mil, foi estruturado em três eixos principais:
- Agroindústria de ovos: equipada para o beneficiamento dos produtos.
- Fábrica de ração: localizada em Godoy Moreira, a 11 km da sede, também em terreno cedido pela prefeitura.
Apoio a famílias produtoras: 16 famílias foram beneficiadas, sendo que sete já possuem certificação orgânica via Tecpar. A ação conta com suporte técnico do IDR-Paraná e da Itaipu Binacional, por meio do programa Paraná Mais Orgânico.
Inicialmente, a capacidade da agroindústria é de até 3 mil ovos por dia. O processamento será manual, com auxílio de bandejas para classificação por diâmetro e balança para medição de peso.
Boas práticas e sustentabilidade no campo
Algumas famílias também receberam auxílio para construção de abrigos e sistemas de captação de água de calhas e cisternas. O projeto prevê a instalação de equipamentos com capacidade para armazenar até 40 mil litros de água. Quatro propriedades foram selecionadas como unidades de referência para difundir boas práticas no uso de recursos naturais.
Cocavi amplia presença no mercado institucional
Criada em 2009, a Cocavi já atua com produção de hortifrútis orgânicos e possui forte atuação no fornecimento de leite – são cerca de 250 mil litros por mês, beneficiados em parceria com a Copran, de Arapongas. Os produtos atendem circuitos curtos e mercados institucionais em sete municípios da região de Jardim Alegre.
O presidente da cooperativa, Pedro Henrique Pereira de Souza, destacou o início das entregas de ovos à prefeitura de Jardim Alegre. “É um contrato pequeno, pois estamos começando, mas já é um grande passo. Queremos ampliar o fornecimento para escolas e outras instituições desses municípios”, afirmou.
A cooperativa também conta com apoio da Cooperativa Central da Reforma Agrária para a comercialização dos ovos em feiras de produtores na região de Curitiba e no Armazém do Campo, em Maringá. Atualmente com 352 sócios, a Cocavi já possui uma lista de espera com 30 famílias interessadas em ingressar no projeto.
Lunardelli inaugura barracão e moderniza produção agrícola
A Associação de Produtores Rurais de Lunardelli (Lunaprol) inaugurou um barracão de alvenaria com 373,82 metros quadrados para o recebimento, classificação e comercialização de frutas e hortaliças. O espaço foi equipado com itens como tanques de higienização, embaladora, balança, câmara fria e mobiliário de escritório.
O investimento contou com R$ 235,4 mil do Estado e R$ 12,3 mil de contrapartida da associação. “A estrutura recuperou a associação e abriu novas oportunidades no mercado de alimentos, servindo como modelo para outros municípios”, destacou o presidente da Lunaprol e secretário de Agricultura de Lunardelli, Lucimar Souza da Silva.
Lunaprol amplia atuação com foco em programas públicos
Fundada em 1995 por cafeicultores, a Lunaprol presta serviços como preparo de solo e beneficiamento de arroz, feijão, milho e café. Os equipamentos são cedidos em comodato pela prefeitura.
Com o novo barracão, a associação pretende ampliar a distribuição por meio de programas como Compra Direta, Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), além de abastecer Ceasas de Maringá e Londrina, o comércio regional e feiras livres.
“O Coopera Paraná transformou a realidade de muitas famílias, oferecendo uma nova fonte de renda e incentivando a permanência no campo”, afirmou o presidente da associação.
Nova mini-indústria de mel em fase final
Lunardelli se prepara para inaugurar, até setembro, uma mini-indústria com capacidade de processar 80 toneladas de mel por ano. O investimento de R$ 372 mil vem de recursos municipais e de emenda parlamentar federal. A gestão será feita pela Lunaprol e beneficiará apicultores de diversos municípios do Vale do Ivaí.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGOCIOS
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro


