AGRONEGOCIOS
Pragas avançam nas pastagens e ameaçam produtividade nacional
AGRONEGOCIOS
Pragas historicamente associadas às regiões tropicais voltaram ao centro das preocupações da pecuária brasileira em 2026. Em meio ao avanço da produção de carne bovina e à valorização da arroba, produtores enfrentam perdas crescentes provocadas pela cigarrinha-das-pastagens e pelo carrapato-do-boi, dois problemas considerados estratégicos pela pesquisa agropecuária por afetarem diretamente produtividade, ganho de peso e qualidade das pastagens.
Levantamentos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária apontam que os prejuízos causados pelo carrapato-do-boi já ultrapassam R$ 15 bilhões por ano no país. O parasita está presente praticamente em todo o território nacional e afeta tanto rebanhos de corte quanto de leite, reduzindo ganho de peso, produção leiteira e fertilidade dos animais, além de elevar os custos com medicamentos e manejo sanitário.
Segundo estudos da Embrapa Gado de Corte, o carrapato também favorece a disseminação da tristeza parasitária bovina, doença que provoca anemia, febre e elevada mortalidade em animais mais sensíveis. Estimativas do setor indicam que as perdas podem chegar a 1,7 milhão de toneladas de carne bovina por ano, volume equivalente a parcela relevante da produção nacional.
O avanço da praga ocorre principalmente em regiões de clima quente e úmido, com maior incidência no Centro-Oeste, Norte e parte do Sudeste, justamente áreas que concentram grandes rebanhos comerciais do país. O Brasil possui atualmente o maior rebanho bovino comercial do mundo, com mais de 230 milhões de cabeças, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e do Ministério da Agricultura e Pecuária.
Outra preocupação crescente é a cigarrinha-das-pastagens, inseto que vem ampliando sua incidência em importantes polos pecuários do Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Tocantins e Minas Gerais. A praga ataca diretamente gramíneas forrageiras, como braquiárias, reduzindo drasticamente a capacidade de alimentação do rebanho.
Pesquisas da Embrapa indicam que áreas infestadas podem sofrer redução de até 70% na produção de biomassa das pastagens. Na prática, isso significa menor disponibilidade de capim, redução da taxa de lotação por hectare e pior desempenho dos animais em engorda.
O problema ganhou força nos últimos anos com o aumento das temperaturas, períodos prolongados de umidade e expansão de sistemas intensivos de produção pecuária. Técnicos alertam que o controle isolado, apenas com aplicação de produtos nos animais ou no pasto, já não é suficiente diante da pressão crescente das infestações.
A recomendação atual dos órgãos de pesquisa é a adoção do chamado manejo integrado, estratégia que combina monitoramento constante das áreas, rotação de pastagens, escolha de variedades forrageiras mais tolerantes, controle biológico e uso racional de defensivos veterinários e agrícolas.
A Embrapa destaca que grande parte do ciclo do carrapato ocorre fora do animal, diretamente nas pastagens, o que torna o controle ambiental um dos principais desafios sanitários da pecuária brasileira. No caso da cigarrinha, a atenção aumenta durante os períodos chuvosos, quando as condições climáticas favorecem explosões populacionais do inseto.
O avanço simultâneo dessas pragas ocorre justamente em um momento de maior valorização da carne bovina brasileira no mercado internacional. O país segue como maior exportador mundial de carne bovina e amplia embarques para mercados da Ásia, Oriente Médio e América do Norte, cenário que aumenta a pressão por produtividade, eficiência sanitária e sustentabilidade dentro das fazendas.
Especialistas do setor avaliam que o combate às pragas deixou de ser apenas uma questão operacional e passou a integrar diretamente a estratégia econômica da pecuária nacional, especialmente diante do aumento dos custos de produção e da maior exigência dos mercados compradores por controle sanitário e rastreabilidade.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGOCIOS
Trump taxa o Brasil por “trabalho escravo”, mas compra 30 vezes mais de “países suspeitos”
Os Estados Unidos começaram a cobrar, nesta sexta-feira (24.07), uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros sob a justificativa de que o país não impediria de maneira efetiva a importação de mercadorias produzidas com trabalho escravo.
Para parte das exportações brasileiras, a nova tarifa será somada à sobretaxa de 25% (veja aqui) que entrou em vigor na quarta-feira (22), elevando o adicional a 37,5%. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, a cobrança acumulada alcança setores como calçados, máquinas e equipamentos, incluindo maquinário agrícola, peças, vestuário e produtos químicos não farmacêuticos. Café e suco de laranja ficaram isentos das duas medidas, enquanto a celulose será atingida somente pelos 12,5%. A incidência final dependerá do código tarifário de cada mercadoria.
O argumento norte-americano, porém, esbarra nos próprios números e mostra que a decisão é eminentemente política. Segundo levantamento do Global Slavery Index, elaborado pela fundação Walk Free e apresentado ao G20, os Estados Unidos importam anualmente US$ 169,6 bilhões em mercadorias suspeitas de terem sido produzidas com trabalho forçado e nenhum desses países foi sobretaxado. No caso brasileiro, o montante é de US$ 5,6 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 28,5 bilhões, ou seja 30 vezes mais.
A classificação da fundação Walk Free não significa que todas essas mercadorias tenham sido comprovadamente produzidas por trabalhadores escravizados, mas mostra que o mercado norte-americano permanece como um dos principais destinos mundiais de bens provenientes dessas cadeias que se utilizam de mão de obra escravizada.
Entre as compras dos Estados Unidos classificadas como de risco estão US$ 107,6 bilhões em eletrônicos procedentes principalmente da China e da Malásia. Também aparecem US$ 52,4 bilhões em roupas produzidas em países como China, Vietnã, Bangladesh, Índia e Malásia. A lista inclui ainda pescados, madeira e produtos têxteis.
Outra incoerência: a nova cobrança não proíbe a entrada dessas mercadorias. Os produtos originados em cadeias apontadas como vulneráveis ao trabalho forçado poderão continuar chegando aos Estados Unidos desde que os importadores paguem o imposto adicional.
O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) que “investigou” o Brasil não formalizou uma acusação de que os produtos brasileiros estão sendo fabricados com trabalho escravo. Apenas frisou que inexiste uma proibição de importação considerada suficientemente abrangente, para impedir que mercadorias produzidas nessas condições em terceiros países entrem no Brasil, e daqui cheguem aos Estados Unidos .
Essa foi uma forma de justificar o injustificável, já que o Brasil possui uma estrutura própria de repressão ao trabalho análogo à escravidão. O artigo 149 do Código Penal enquadra como crime situações envolvendo trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes e restrição da liberdade por dívida. O país também mantém grupos móveis de fiscalização e um cadastro público de empregadores responsabilizados administrativamente, conhecido como Lista Suja do Trabalho Escravo.
Desde 1995, mais de 68 mil trabalhadores foram retirados de condições análogas à escravidão em mais de 8 mil ações fiscais, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Somente em 2025, foram resgatadas 2.772 pessoas, enquanto as fiscalizações resultaram no pagamento de aproximadamente R$ 9,4 milhões em verbas trabalhistas e rescisórias. A versão mais recente da Lista Suja foi atualizada em 14 de julho deste ano.
Esses números não significam que o problema esteja eliminado no território brasileiro. Eles demonstram, entretanto, que o país reconhece a existência das irregularidades, investiga denúncias, responsabiliza empregadores e retira trabalhadores das situações encontradas. O próprio relatório produzido pelo USTR registra manifestações apresentadas durante a investigação que destacaram a existência de uma estrutura legal e institucional consolidada no Brasil.
Outro ponto que relativiza a justificativa humanitária está no amplo conjunto de exceções definido pelos Estados Unidos. Ficaram protegidas da nova tarifa matérias-primas que possam provocar desabastecimento, produtos capazes de gerar impactos econômicos mais amplos e mercadorias que não possam ser produzidas em quantidade suficiente no território norte-americano.
A lista de exceções alcança itens de interesse direto do agronegócio, como determinados produtos de origem animal, sementes, insumos para fertilizantes e defensivos, couros, madeira, café solúvel sem aromatização e volumes de açúcar importados dentro das cotas estabelecidas. Na prática, a aplicação da medida será determinada não apenas pelo argumento relacionado ao trabalho forçado, mas também pela necessidade de preservar o abastecimento e os custos da economia americana.
Para o agro brasileiro, o impacto será desigual. Produtos incluídos nas exceções poderão continuar entrando sem a nova cobrança, enquanto os demais ficarão sujeitos aos 12,5%. Nos casos em que a tarifa se somar à sobretaxa de 25% estabelecida em outra investigação comercial, a cobrança nominal poderá alcançar 37,5%, dependendo da classificação aduaneira de cada mercadoria.
O momento escolhido para colocar a medida em vigor também chama atenção. A nova tarifa começou a valer exatamente quando terminou a cobrança global temporária de 10% criada anteriormente pelo governo norte-americano. Em fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos havia derrubado as chamadas tarifas recíprocas, que variavam de 10% a 50%. Agora, Washington recorreu à Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 para recompor uma barreira de alcance semelhante sob outra fundamentação jurídica.
A coincidência entre o calendário eleitoral e o aumento das barreiras comerciais mostra que as tarifas norte-americanas deixaram de ser apenas um instrumento de política comercial e passaram a integrar o ambiente político brasileiro.
Fonte: Pensar Agro


