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USDA divulgará previsões de março com possíveis surpresas para analistas de grãos
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As projeções do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) para março devem desafiar as previsões de analistas do mercado de grãos. Entre os destaques, estão os estoques de milho e soja em 1º de março, assim como as intenções de plantio para a próxima safra. Tradicionalmente, esses relatórios costumam surpreender o mercado, e as estimativas apertadas deste ano aumentam a possibilidade de ajustes significativos nos preços.
Estoques de milho e soja: previsões apertadas e risco de erro
A expectativa média dos analistas é de que os estoques de milho dos EUA em 1º de março fiquem em 8,151 bilhões de bushels, uma queda de 2,4% em relação ao ano anterior. A faixa de estimativas é de apenas 261 milhões de bushels, o menor intervalo para esse relatório desde 2009. Essa margem reduzida aumenta a chance de divergências significativas entre as previsões e os dados oficiais. Nos últimos cinco anos, os estoques de milho de março ficaram abaixo da estimativa média de mercado.
Para a soja, os estoques devem atingir 1,901 bilhão de bushels, um aumento de 3% no comparativo anual. A margem de previsões, de 192 milhões de bushels, também é estreita, a menor desde 2016. No entanto, os estoques de soja de março não ficaram fora da faixa projetada pelos analistas desde 2013, indicando um cenário de previsibilidade um pouco maior para a oleaginosa.
O USDA reduziu em janeiro as estimativas de produção de milho e soja para 2024, o que gerou debates entre operadores do mercado sobre a possibilidade de revisões futuras nos relatórios trimestrais de estoques, especialmente para o milho. No entanto, não há indícios concretos de que uma revisão da safra necessariamente resulte em alterações substanciais nos números de estoque.
Intenções de plantio: milho em alta, soja em queda
As projeções indicam que a área plantada com milho nos EUA em 2025 deve atingir 94,361 milhões de acres, um aumento de 4,2% em relação ao ano anterior e ligeiramente acima da meta do USDA de 94 milhões. A faixa de previsão dos analistas é de 4,1 milhões de acres, variando entre 96,6 milhões e valores mais modestos.
Historicamente, as intenções de plantio de milho em março têm ficado fora das previsões comerciais em oito dos últimos nove anos. Seis dessas ocorrências foram desvios significativos. Desde 2013, os acres de milho em março não ficaram dentro de 1% da estimativa média de mercado, reforçando a incerteza em torno desse número.
A relação entre os futuros da soja e do milho na Bolsa de Chicago (CBOT) também é um fator relevante. Nos últimos 20 anos, quando essa relação esteve abaixo de 2,3 em fevereiro, a área plantada com milho não ficou abaixo da estimativa média do mercado. Este ano, a média foi de 2,24, favorecendo o milho.
Por outro lado, a área de soja deve atingir 83,762 milhões de acres, uma queda de 3,8% em relação ao ano anterior. Esse é o maior declínio anual projetado pelo mercado para a oleaginosa desde 2007, refletindo um sentimento pessimista em relação à cultura.
As intenções de plantio de soja ficaram dentro da faixa projetada em todos os anos desde 2018, mas os analistas alertam para uma possível surpresa na divulgação de segunda-feira. Historicamente, os números reais têm superado a média das estimativas apenas três vezes nos últimos 16 anos (2022, 2017 e 2014).
Mercado financeiro de olho no impacto dos relatórios
Os contratos futuros de milho e soja da CBOT sofreram desvalorizações nas últimas sessões. Caso os relatórios do USDA tragam dados divergentes das expectativas, o mercado pode reagir com movimentos abruptos de alta ou baixa.
Se os estoques e as intenções de plantio vierem abaixo das projeções, os preços podem se recuperar rapidamente. Por outro lado, se os relatórios indicarem maior disponibilidade de grãos do que o esperado, as cotações podem sofrer novas quedas. O mercado se prepara para um pregão de forte volatilidade após a divulgação dos dados.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro


