MATO GROSSO
Congresso Internacional encerra com reflexões sobre o futuro da Justiça e os desafios da era digital
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Especialistas, magistrados, acadêmicos e operadores do Direito reuniram-se em Cuiabá para refletir sobre o presente e o futuro da Justiça no Congresso Internacional de Precedentes, realizado no Complexo dos Juizados Especiais. Promovido pela Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso (Esmagis-MT), o encontro consolidou-se como um espaço de diálogo qualificado sobre segurança jurídica, inovação tecnológica, inteligência artificial e os desafios estruturais do sistema de Justiça em um mundo marcado por transformações aceleradas.
Ao longo dos debates (realizados nos dias 2 e 3 de fevereiro), evidenciou-se a necessidade de equilíbrio entre tradição e modernidade, bem como a importância de instituições cooperadas, formação continuada de magistrados e servidores e uma visão multidisciplinar para responder às demandas de uma sociedade cada vez mais complexa e conectada.
A mesa de debates, que discutiu os caminhos da Justiça, encerrou o evento. “Nós temos um cenário com algo muito maior para todos nós. Gostemos ou não, é a era digital. Essa era digital, diferentemente da era do comércio, levou séculos para se espalhar por todo o planeta, e da era industrial, que também levou um século para se consolidar, avança muito rapidamente”, pontuou o desembargador Márcio Vidal, que é diretor-geral da Esmagis-MT.
“Toda semana você é surpreendido por um novo instrumento digital. E com esse novo momento digital surgem problemas sociais, econômicos e políticos. Essa compreensão exige uma visão ampla e multidisciplinar. O Direito, sozinho, não é capaz de resolver todos os problemas da sociedade nem superar todas as dificuldades. Uma decisão judicial voltada ao governo, por exemplo, não é suficiente se não houver condições mínimas para que ela seja efetivada e alcance a realidade social”, acrescentou o Vidal.
O magistrado Antônio Veloso Peleja Júnior, juiz auxiliar da Vice-Presidência do Tribunal de Justiça de Mato Grosso e coordenador pedagógico da Esmagis-MT, observou que “quando falamos de justiça, estamos nos referindo à apreciação judicial, ao próprio Poder Judiciário e aos problemas que o atravessam. E é importante dizer: o problema não é a justiça em si, mas sim um conjunto de problemas estruturais da nossa sociedade que repercutem no sistema de justiça”.
Ele apontou que “o Brasil é um país jovem e carrega problemas estruturais históricos, econômicos, sociais e institucionais, que inevitavelmente impactam o Judiciário e os demais sistemas de justiça. Esses desafios não nasceram agora, eles vêm de um processo longo de formação do Estado brasileiro e de sua democracia”.
Antônio Veloso destacou que ao longo dos anos, o país tem buscado alternativas para melhorar o acesso à justiça e reduzir conflitos judiciais. “Criamos mecanismos de conciliação, mediação e meios alternativos de resolução de conflitos, especialmente a partir das reformas legislativas dos anos 2000 e da criação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2004. Hoje, o Poder Judiciário não atua sozinho. Ele dialoga com outros atores institucionais, com a sociedade e com políticas públicas. O Judiciário brasileiro tem uma característica própria: ele não é apenas um aplicador da lei, mas também um ator ativo na construção de soluções para problemas sociais e institucionais”.
Nesse contexto, explicou, entra a inteligência artificial. “A IA não é uma escolha opcional, ela já está posta. O desafio não é “gostar ou não” dela, mas saber como utilizá-la com responsabilidade, boa gestão e formação adequada. Para isso, é indispensável conhecimento, capacitação e desenvolvimento tecnológico dentro dos tribunais e das instituições”.
“Cada estado brasileiro tem suas particularidades, suas leis e seus precedentes. Não faz sentido impor um modelo único e uniforme sem considerar essa diversidade. Por isso, a construção de padrões, critérios e métodos deve respeitar as diferenças regionais e institucionais”, concluiu o magistrado.
O professor catedrático da Universidad de Salamanca, Lorenzo Mateo Bujosa Vadell, avaliou que “o destino do mundo global — e particularmente o destino europeu — deveria caminhar para uma união mais profunda, uma verdadeira União Europeia em formato de Estado federal. Ainda estamos longe disso, mas desde o final do século passado até hoje houve avanços importantes na harmonização legislativa e na integração em várias áreas, embora esse processo não seja linear nem simples”.
O conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso, Allison Alencar, refletiu: “Avançamos muito? Sim, avançamos. Mas ainda não chegamos ao ponto em que deveríamos estar. Por quê? Porque, embora tenhamos digitalizado total ou parcialmente os processos no Brasil, ainda não alcançamos o nível de automação necessário para transformar de fato a prestação jurisdicional”.
Ele avaliou que “é importante termos esse enquadramento conceitual: a tecnologia pode e deve trazer mais eficiência ao sistema de Justiça, mas o protagonismo sempre precisará ser humano. A decisão final, o julgamento e a responsabilidade devem permanecer nas mãos das pessoas”.
O professor doutor Marco Marrafon apresentou uma reflexão consistente sobre as relações institucionais e os limites do sistema de Justiça no Brasil.
“No plano estratégico do Poder Judiciário e da Justiça, precisamos pensar no futuro das instituições, na relação entre governantes e governados e no papel dos tribunais. No plano de segurança, minha formação mostra que muitas vezes o problema não é jurídico, é político. E esses debates precisam ser feitos com honestidade. Eu vivi um período em que acreditávamos que o Direito poderia resolver tudo. Mas aprendi que há limites”.
Marrafon observou que “somos um dos poucos países do mundo com controle concentrado tão forte e hiperconstitucionalização tão ampla. Isso gerou excesso de judicialização. Do ponto de vista interno, precisamos ‘ajustar os freios’. O sistema está desequilibrado. Para isso, precisamos de postulados básicos e de diálogo institucional”.
Por fim, Marrafon alertou que “quando a política vira tudo direito, o direito deixa de ser direito. Esse é um problema central. Por isso, considero fundamentais os meios alternativos de resolução de conflitos, arbitragem, mediação, conciliação, para que o Judiciário se concentre em questões estruturais e de maior impacto social”.
O procurador de Justiça, doutor e mestre em Direito pela PUC-SP e professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Antonio Sérgio Cordeiro Piedade, defendeu que “precisamos de uma ciência penal total, que contemple a dogmática, a criminologia e a política criminal. Nós tivemos o pós-finalismo penal, denominado funcionalismo penal, com funcionalismo extremado ou sistêmico, que tenta fazer a junção entre a dogmática e a política criminal”.
“Com relação à dogmática – prosseguiu Piedade -, nós temos hoje enfrentamentos importantes. Precisamos compreender que o princípio da legalidade é um instrumento de garantia contra excessos e arbítrio estatal. E precisamos compreender, do ponto de vista criminológico, que a criminalidade organizada sistêmica produz vítimas de violência”.
“O grande problema é enfrentarmos minimamente a pauta das organizações criminosas e da segurança pública. A insegurança pública traz prejuízos que afetam a economia e diversas áreas. É importante dizer que, no mundo da política criminal, precisamos de uma revolução e de um aprimoramento legislativo. Temos vários projetos em andamento. Precisamos de instituições trabalhando de forma cooperada, integrada e coordenada”, finalizou o procurador.
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Autor: Patrícia Neves
Fotografo: Alair Ribeiro
Departamento: Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
Email: [email protected]
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Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.
Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.
Já estava escrito
“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.
Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.
“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.
A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.
Legado construído com exemplo
Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.
Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.
Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.
Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.
Apoio incondicional
Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.
Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.
Adoção
Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.
Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.
Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.
Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.



