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Judiciário e UFR promovem diálogos acadêmicos e apresentam iniciativas contra violência escolar

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Vista de trás de uma mesa com quatro palestrantes de costas, voltados para uma plateia numerosa e sentada em um auditório iluminado com teto de PVC.Na noite de quinta-feira (18 de junho), o Poder Judiciário de Mato Grosso, por meio da Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso (Esmagis-MT) e da Comarca de Rondonópolis, e a Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) promoveram o evento “Diálogos Acadêmicos – Educação Jurídica no Ensino Fundamental e Médio como Instrumento de Prevenção e Enfrentamento da Violência nas Escolas”, reunindo autoridades, magistrados, docentes, estudantes e representantes da sociedade civil em um esforço conjunto para discutir soluções concretas diante do crescente cenário de violência no ambiente escolar.

A iniciativa integrou diferentes instituições em torno de um objetivo comum: transformar o conhecimento acadêmico em ações práticas de impacto social.

Um homem de terno azul discursa em um púlpito com microfone para uma plateia sentada. Ao fundo, há um banner verde com a inscrição ESMAGIS-MT.Durante o encontro, foi ressaltada a importância da aproximação entre universidade e Poder Judiciário como estratégia fundamental para enfrentar problemas complexos da sociedade contemporânea. O diretor-geral da Esmagis-MT, desembargador Márcio Vidal, destacou que a cooperação institucional tem sido uma prioridade da atual gestão. “A administração atual desse biênio, desde o princípio, promoveu a integração e a cooperação com todas as academias e também com as universidades. No ano passado, tivemos um encontro quase no mesmo formato de um diálogo, com todos os dirigentes das faculdades de Direito, discutindo qual é o currículo, a grade curricular ideal para o momento que estamos vivendo”, afirmou.

Ele ressaltou ainda a importância da continuidade desse diálogo e da construção coletiva de soluções. “É uma alegria saber que há uma continuidade de engajamento de todos da academia no objetivo de encontrar uma solução que seja mais adequada à sociedade, na qual todos nós estamos imersos, com problemas inúmeros. Então, precisamos não só discutir e trazer ideias, e o fundamental é implementar ações que venham trazer um resultado satisfatório a todos nós”, pontuou.

O magistrado também enfatizou o papel central da educação e da participação social no enfrentamento desses desafios. “Não há outro caminho a não ser a educação. A civilização humana, desde os primórdios dos tempos, sempre deparou com a questão da violência, com a questão da fome e, às vezes, com a tirania de alguns. E não consegue solucionar, porque isso faz parte da imperfeição humana. Mas o importante é que todos os segmentos estejam conscientes do seu papel como ser humano e também na sociedade. Então, tragam ideias para que se transformem em ação, para que possamos mitigar esses problemas que estão a nossas vistas no nosso dia a dia”, disse.

Ao se dirigir aos estudantes, ele reforçou a importância da formação ética e do compromisso com a sociedade. “Vocês, jovens, que irão nos substituir, que irão ocupar nossas cadeiras, precisamos de bons profissionais. E, para se ter bons profissionais, precisamos que tenham ética, moral e o conhecimento mais amplo possível. Vocês podem mudar a sociedade. Vocês podem melhorar o mundo. Depende de vocês.”

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Papel transformador das universidades

Uma mulher de óculos e blusa clara com estampas geométricas fala ao microfone, sentada à mesa com as mãos entrelaçadas. Ao lado direito, vê-se parte de outra mulher de blazer preto.A reitora da UFR, Analy Castilho Polizel de Souza, ressaltou o papel transformador da universidade e o impacto direto das ações desenvolvidas pelo curso de Direito, que, apesar de muito recente, já apresenta resultados concretos para a comunidade. “Problemas complexos exigem soluções complexas. Integrar universidade, Poder Judiciário e sociedade é fundamental na busca de respostas”, pontuou. Ela destacou que a criação do curso e a construção de iniciativas como o projeto de extensão e o desenvolvimento de soluções tecnológicas representam uma resposta efetiva às demandas sociais. “A universidade foi criada para transformar, e a educação transforma vidas”, reforçou.

Uma mulher de cabelos escuros e blazer claro discursa em um púlpito acrílico com microfone. Ao fundo, uma cortina preta à esquerda e, à direita, um banner verde com o logotipo da MAGIS-MT.Presente ao evento, a diretora do Foro da Comarca de Rondonópolis, juíza Aline Luciane Ribeiro Viana Quinto Bissoni, também enfatizou a relevância do tema e o papel da escola na identificação e enfrentamento dessas situações. Segundo ela, o ambiente escolar funciona como um “radar social”, onde diferentes formas de violência se manifestam e podem ser percebidas. “É um espaço em que conseguimos avaliar o que está acontecendo e, a partir disso, pensar em ações principalmente preventivas e educativas”, destacou.

Índices preocupantes de violência nas escolas

Um dos principais destaques do evento foi a apresentação de dados obtidos por meio de uma pesquisa de campo realizada com 724 estudantes de escolas públicas e privadas de Rondonópolis. O levantamento revelou índices preocupantes de violência no ambiente escolar. De acordo com o coordenador do curso de Direito da UFR, professor Anderson Nogueira Oliveira, os resultados evidenciam a gravidade da situação. “Quase 80% dos estudantes relataram já ter sofrido violência psicológica dentro da escola, especialmente bullying, e cerca de 38% sofreram agressão física”, informou.

Mãos de uma pessoa seguram um celular que exibe o aplicativo Diante desse cenário, o curso de Direito estruturou uma série de iniciativas voltadas à prevenção e ao enfrentamento da violência, entre elas o projeto de extensão “Noções de Direito nas Escolas”, que já impactou mais de mil estudantes e contribuiu para a criação da Lei Municipal n. 14.301/2025. A legislação institui o ensino de noções jurídicas nas escolas como ferramenta de conscientização e promoção da cidadania.

Outro avanço significativo apresentado durante o evento foi o lançamento do aplicativo Alertia, uma plataforma desenvolvida por docentes e discentes para facilitar o registro de denúncias relacionadas à violência escolar. A ferramenta permitirá que estudantes, familiares e membros da comunidade encaminhem informações de forma segura, possibilitando a coleta estruturada de dados e o direcionamento adequado às autoridades competentes.

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Homem de terno preto e barba fala ao microfone em palco ao lado de TV com slide azul sobre educação jurídica. À esquerda, quatro bandeiras oficiais; à frente, a plateia de costas.O professor Anderson explicou que a criação do aplicativo surgiu a partir da constatação de que os alunos não se sentem confortáveis em relatar situações de violência por meio dos canais tradicionais. “Cerca de 75% dos estudantes indicaram que gostariam de um canal externo para denunciar essas situações”, destacou. Segundo ele, o aplicativo também permitirá que estudantes do curso de Direito atuem no apoio à apuração inicial dos casos, encaminhando-os posteriormente aos órgãos responsáveis.

A estudante Sophia Baptistella, presidente da LegalTech Jr. e idealizadora do projeto de lei, destacou que o uso da tecnologia foi essencial para viabilizar soluções em larga escala dentro do ambiente escolar. “Nós tínhamos o interesse de implementar um serviço de compliance para lidar com casos de bullying, mas percebemos que, pelo grande número de alunos, isso não seria possível sem o uso de tecnologia para otimizar o processo. Então a ideia do aplicativo surgiu a partir disso”, explicou. Segundo ela, a proposta foi pensada para ser prática e acessível, permitindo que estudantes, familiares e comunidade compreendam seu funcionamento e utilizem o mecanismo de denúncia de forma simples e direta.

Uma jovem de óculos e blazer preto fala ao microfone. Ela tem cabelos longos e claros, e segura um passador de slides na outra mão.Sophia também ressaltou que o contato com a realidade das escolas foi determinante para estruturar o projeto. “Muito deboche, muita discriminação, principalmente por gênero e identidade. Foi muito triste o que a gente viu nas escolas”, relatou. Para a estudante, a articulação entre universidade e Judiciário fortaleceu a iniciativa e criou as condições ideais para sua implementação. “Essa relação acabou ‘casando’ muito bem, porque havia a necessidade de discutir o bullying, que é crescente, e nós já estávamos desenvolvendo um projeto voltado para isso”, afirmou.

O evento contou ainda com a participação da professora Dra. Claudineia de Araújo, pró-reitora de Extensão da UFR, e do professor Dr. Fábio Nobuo, secretário de Inovação e Empreendedorismo da universidade, além da juíza Alethea Assunção Santos, coordenadora do Grupo de Estudos da Magistratura de Mato Grosso (Gemam). Também esteve presente o vereador Vinícius Amoroso, responsável pelo projeto que originou a Lei nº 14.301/2025, e o senador Jayme Campos, representante de Mato Grosso no Congresso Nacional.

Clique neste link para baixar o aplicativo.

Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail [email protected] ou pelos telefones (65) 3617-3844 / 99943-1576.

Autor: Lígia Saito

Fotografo: Rodrigo Moura

Departamento: Assessoria de Comunicação da Esmagis – MT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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As duas escalações

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Ontem pela manhã, eu estava na padaria em busca de uns pãezinhos quando encontrei um amigo. Como costuma acontecer entre brasileiros em tempos de Copa do Mundo, não demorou nem trinta segundos para que o assunto chegasse ao futebol.Falamos sobre o próximo jogo da Seleção. Comentamos a atuação da equipe na estreia e, como todo torcedor que se preze, começamos a escalar um novo time.Sugeri algumas mudanças. Disse que colocaria Endrick entre os titulares. Também trocaria o goleiro. Em vez de Alisson, entraria Weverton. Mencionei ainda outras alterações no meio-campo. Meu amigo concordou com algumas, discordou de outras. Durante alguns minutos, fizemos aquilo que milhões de brasileiros fazem diariamente sem qualquer remuneração e sem jamais receber um convite oficial da CBF: trabalhamos como técnicos da Seleção.A certa altura, porém, a conversa tomou um rumo inesperado.Ele comentou que havia lido um dos meus artigos sobre literatura russa e observou que eu vinha escrevendo bastante sobre Dostoiévski. Em seguida, fez uma pergunta simples:— E da literatura brasileira? Qual seria a sua escalação? Quais seriam, para você, os nossos maiores romances?Percebi naquele instante que ele havia me colocado diante de um desafio ainda mais difícil do que escalar a Seleção.Porque mudar um volante ou escolher um goleiro é relativamente simples. Difícil mesmo é selecionar apenas algumas obras em uma literatura tão rica quanto a brasileira.Ainda assim, arrisquei uma convocação.Comecei por Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Depois vieram Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro; Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro e Esaú e Jacó, de Machado de Assis; Os Sertões, de Euclides da Cunha; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; O Cortiço, de Aluísio Azevedo; Senhora, de José de Alencar; e Sargento Getúlio, novamente de João Ubaldo Ribeiro.— E só onze? — perguntou ele.Foi então que me lembrei de que toda seleção possui um décimo segundo jogador: a torcida.Aquela presença que não entra oficialmente em campo, mas sem a qual o espetáculo fica incompleto. A multidão que canta, sofre, reclama, vibra, empurra o time e, às vezes, acredita na vitória quando nem os próprios jogadores parecem acreditar.— Tem razão — respondi. — Falta o décimo segundo jogador.E acrescentei A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.Meu amigo olhou para a lista por alguns segundos.— E por que Guimarães Rosa em primeiro?Pensei um pouco antes de responder.— Porque ninguém escreveu um livro tão brasileiro e, ao mesmo tempo, tão universal.Ele sorriu, como quem pede uma explicação melhor.— Pense no sertão de Riobaldo. A gente entra no romance acreditando que vai acompanhar a história de jagunços e batalhas. Quando percebe, está refletindo sobre amor, amizade, coragem, culpa, liberdade e até sobre a existência do mal. Poucos escritores conseguiram transformar um pedaço tão específico do Brasil numa experiência tão humana.— E João Ubaldo?— João Ubaldo fez outra coisa extraordinária. Conseguiu contar a história do Brasil sem deixar que as pessoas desaparecessem debaixo da História. Em Viva o Povo Brasileiro, o país inteiro passa diante dos nossos olhos, mas nunca como uma abstração. São sempre pessoas de carne e osso.Meu amigo assentiu com a cabeça.Não sei se concordou comigo ou apenas decidiu encerrar o debate. Afinal, discussões sobre literatura costumam ser tão inconclusivas quanto discussões sobre futebol.Quando nos despedimos, cada um seguiu para um rumo diferente.A conversa, porém, permaneceu comigo.Afinal, a lista havia saído quase de improviso, como saem as escalações discutidas em mesas de bar, filas de banco e padarias.Ao chegar em casa, fiquei pensando que futebol e literatura talvez tenham mais semelhanças do que imaginamos.Os dois falam muito sobre a gente.Quando alguém escala uma seleção, não está apenas escolhendo jogadores. Está revelando uma visão de futebol. Há quem valorize a técnica; há quem prefira a força física. Alguns priorizam a experiência; outros apostam na juventude. Uns defendem a posse de bola; outros acreditam no contra-ataque. No fundo, cada escalação é também uma pequena declaração de princípios.Com os livros acontece algo semelhante.Diga-me quais são os romances que você considera indispensáveis e eu saberei muito sobre você. Sobre sua sensibilidade. Sobre suas inquietações. Sobre aquilo que procura na arte e, talvez, na própria vida.Quem escolhe Machado de Assis talvez admire a inteligência e a ironia. Quem prefere Graciliano Ramos pode valorizar a concisão e a secura. Quem se encanta por Guimarães Rosa costuma enxergar a linguagem não apenas como instrumento, mas como aventura. Quem leva João Ubaldo para a lista provavelmente acredita que a literatura pode ser, ao mesmo tempo, grandiosa, popular, divertida e profunda. E quem reserva uma vaga para Clarice talvez reconheça que os grandes acontecimentos da existência nem sempre ocorrem no mundo exterior. Muitas vezes acontecem dentro de nós.Naturalmente, toda lista é imperfeita.Aliás, essa é uma de suas virtudes.Nenhuma convocação agrada a todos. Nenhuma seleção dos maiores romances brasileiros será capaz de contemplar todas as obras que merecem estar ali. Sempre haverá um grande autor injustiçado. Um romance extraordinário deixado no banco de reservas. Um clássico esquecido por mero excesso de concorrência.Talvez seja justamente por isso que gostamos tanto de fazer listas.Não para encerrar discussões, mas para iniciá-las.Talvez porque, no fundo, escalemos nossos times e nossos livros pela mesma razão: ambos nos ajudam a contar a história de quem somos.E agora, aproveito para devolver a pergunta ao leitor.Qual seria a sua escalação para o próximo jogo da Seleção?E qual seria a sua convocação dos doze maiores romances da literatura brasileira?Lembre-se de reservar uma vaga para o décimo segundo jogador.No futebol, ele costuma ficar na arquibancada.Na literatura, talvez esteja na sua estante.E ainda bem.

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*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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