POLITÍCA NACIONAL
CCJ: debatedores sugerem mudanças no Comitê Gestor do IBS
POLITÍCA NACIONAL
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) promoveu, na tarde desta terça-feira (10), mais uma audiência pública para debater o Projeto de Lei Complementar (PLP) 108/2024, que dá continuidade à reforma tributária.PLP
O foco desta vez foi a criação definitiva do Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (CG-IBS), órgão especial responsável por coordenar o IBS, tributo que unificará os atuais ICMS (estadual) e ISS (municipal). Os debatedores elogiaram a reforma tributária e a criação do CG-IBS, mas sugeriram algumas mudanças no órgão.
O CG-IBS é um órgão sem subordinação hierárquica a qualquer outra instituição do poder público, composto por representantes de estados, Distrito Federal e municípios. Como a implementação do novo tributo já começará a ser testada em 2026, o comitê precisa ser instituído definitivamente ainda neste ano. O CG-IBS já foi criado temporariamente pela Lei Complementar 214, de 2024, mas só poderá funcionar até o último dia de 2025.
O senador Confúcio Moura (MDB-RO) dirigiu a primeira parte da audiência. Ele informou que o relator do projeto, senador Eduardo Braga (MDB-AM), não poderia comparecer por razões pessoais. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) coordenou a parte final do debate.
Atribuições
O secretário extraordinário da Reforma Tributária do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, explicou que o comitê terá caráter técnico e será gerido conjuntamente por estados, DF e municípios. Ele negou que o comitê tenha “muito poder”, pois não poderá legislar. Conforme disse Appy, o comitê vai arrecadar o IBS e editar um regulamento único, promovendo segurança jurídica. Ele ainda informou que o orçamento do comitê será de 0,2% da arrecadação do IBS, com fiscalização do Tribunal de Contas da União (TCU).
— O comitê é o meio pelo qual os estados e os municípios exercem competências operacionais e de gestão sobre o IBS — esclareceu Appy.
Segundo o secretário, o comitê é importante porque, entre suas atribuições, está a arrecadação centralizada, além da garantia de um ressarcimento ágil do crédito acumulado pelas empresas. O comitê também busca assegurar que estados e municípios não dependam de repasses uns dos outros. Appy ainda lembrou que o órgão precisa se submeter aos princípios da administração pública, como a legalidade, a impessoalidade e a eficiência.
Municípios
O presidente da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP), Eduardo Paes, definiu o comitê gestor como “muito importante” por tratar de tributos que vão sustentar estados e municípios. Para Eduardo Paes, porém, alguns ajustes são necessários para indicação de representantes dos municípios dentro do comitê, para uma representação mais democrática.
Paes, que é prefeito do Rio de Janeiro, registrou que a FNP defende que fique expressa a vedação a candidatos que mantenham contrato com qualquer associação de representação de municípios — ou seja, se tem contrato, não pode ser indicado na chapa. Ele ainda sugeriu que os municípios indiquem como representantes para o Conselho Superior do comitê, necessariamente, os secretários municipais da área fazendária.
— Senão, corremos o risco de criar uma entidade ser tomada por pessoas que têm isso como sua atividade profissional. A política não pode continuar sendo tratada dessa maneira — argumentou Paes.
O presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Paulo Ziulkoski, disse que a CNM sempre apoiou uma reforma tributária ampla. Ele, no entanto, manifestou preocupação com uma possível tentativa de transformar o Conselho Superior do comitê em uma “entidade política”, retirando a possibilidade de indicação de técnicos das administrações tributárias dos municípios.
Nesse ponto, há uma divergência entre a forma de indicação da CNM e da FNP, o que não tem permitido um acordo de indicação dos representantes dos municípios dentro do Conselho Superior. Enquanto a FNP quer a indicação de secretários, a CNM pede a indicação de técnicos fazendários.
Na visão do presidente do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), Flávio César, a reforma tributária vai impactar o país, elevando o Brasil a outro patamar. Ele lembrou que o Conselho Superior provisório foi instalado no dia 16 de maio, sem representantes dos municípios. Segundo César, é importante “caminhar juntos”, superando as diferenças entre entidades, como a CNM e a FNP, em favor do Brasil.
— Este novo sistema tributário do país é um casamento entre estados e municípios. Não tem como cada um andar sozinho — afirmou César.
Créditos e contas
Na opinião do advogado Eduardo Lourenço, especialista em direito tributário, a reforma tributária pode não ser perfeita, mas é um avanço e merece ser elogiada. Ele sugeriu um prazo mais ágil para a homologação de créditos acumulados de ICMS. Para Lourenço, deveria haver uma uniformização da forma de concessão de crédito, para evitar que cada estado faça suas regras.
Lourenço também disse que os estados poderiam devolver os créditos de forma mais acelerada, como contrapartida de uma política de inventivo ao desenvolvimento regional. Ele lembrou que a previsão é de até 240 meses para a devolução — o que permitiria a redução do prazo. Por fim, ele também sugeriu a criação de mecanismos que permitam uma maior participação da sociedade civil dentro da indicação do uso desses créditos.
O conselheiro do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) e representante da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), André Clemente Lara de Oliveira, destacou que a reforma é importante por conta da segurança jurídica, da simplificação e de uma carga tributária mais justa. Ele, no entanto, alertou que é essencial a manutenção da autonomia dos entes federados. Para André de Oliveira, é importante a criação de um exame de contas para acompanhar as questões de arrecadação e gestão dos tributos.
— A reforma tributária é uma reforma que todo mundo quer. Nunca saiu por falta de convergência. Temos uma federação, mas União e estados têm limites. Os municípios precisam ser ouvidos — apontou.
Técnicos
O presidente da Associação Nacional de Fiscais de Tributos Estaduais, Rodrigo Spada, pediu a vinculação de um percentual da arrecadação do IBS para entidades de assistência social. Ele também defendeu uma emenda apresentada pelo senador Weverton (PDT-MA), sobre a Escola Nacional de Tributação, que atuaria com independência técnica e acadêmica para uniformizar questões relacionadas ao exercício do Comitê Gestor e do Conselho Superior.
Spada ainda sugeriu que a suplência dos representantes dos estados no Conselho Superior do Comitê Gestor do IBS seja exercida pela maior autoridade da carreira de auditor fiscal da unidade federativa representada.
O presidente da Federação Nacional dos Auditores e Fiscais de Tributos Municipais (Fenafim), Fábio Macêdo, manifestou preocupação com uma possível elevação de alíquotas e defendeu maior participação de técnicos de carreira na administração do Comitê Gestor. Ele ainda pediu um pacto nacional entre estados e municípios em favor da gestão IBS.
— A transição é temporária, mas a integração é permanente. Eu acho fantástica essa reforma, se conseguirmos essa integração — declarou Macêdo.
O presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), Pablo Cesário, disse que o grande desafio é diminuir o litígio tributário no Brasil. Para ele, os entendimentos e os acordos são importantes por permitir a previsibilidade. Cesário ainda sugeriu a redução das hipóteses de multa, das 37 previstas para apenas três.
Os senadores Oriovisto Guimarães (Podemos-PR) e Eduardo Gomes (PL-TO) acompanharam parte da audiência. Os prefeitos de São Paulo, Ricardo Nunes, e de Porto Alegre (RS), Sebastião Melo, além de secretários de finanças municipais também assistiram ao debate.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLITÍCA NACIONAL
Projeto cria política nacional de incentivo ao empreendedorismo feminino
O Projeto de Lei 2632/26, da deputada Soraya Santos (PL-RJ), cria a Política Nacional Integrada de Autonomia Econômica, Empreendedorismo e Inserção Produtiva de Mulheres, denominada “Mulheres em Movimento”.
O objetivo é promover a independência financeira das mulheres por meio de qualificação profissional, acesso a crédito e fortalecimento de empreendimentos liderados por elas.
A proposta está em análise na Câmara dos Deputados.
Beneficiárias
A política atenderá mulheres com faturamento anual de até R$ 360 mil, limite atual das microempresas. Entre as beneficiárias estão:
- mulheres em processo de inserção produtiva;
- agricultoras familiares e produtoras rurais;
- cooperativas compostas por pelo menos 4/5 de mulheres;
- microempreendedoras individuais (MEIs);
- empresárias;
- microempresas controladas por mulheres; e
- profissionais liberais.
Terão prioridade:
- chefes de família de baixa renda;
- mulheres em situação de violência doméstica e familiar;
- desempregadas há mais de 12 meses;
- mulheres com 50 anos ou mais;
- mulheres em situação de vulnerabilidade social e econômica; e
- mulheres com filhos ou dependentes com deficiência.
Desafios
Segundo Soraya Santos, a desigualdade econômica entre homens e mulheres resulta de múltiplos obstáculos, como dificuldade de acesso ao crédito, sobrecarga de cuidados, baixa qualificação e barreiras para entrar no mercado.
“Em vez de dispersar iniciativas em ações fragmentadas, a proposição reúne instrumentos de apoio financeiro transitório, capacitação, orientação técnica, crédito, garantias, cooperativismo, acesso a mercados e inserção produtiva em um mesmo marco normativo”, afirmou.
Como vai funcionar
A União coordenará a política, que será executada de forma descentralizada, com participação de estados e municípios.
O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) será um dos principais parceiros na implementação da política.
A implementação da política será feita por instrumentos como:
- apoio financeiro transitório para superação da vulnerabilidade;
- capacitação profissional e orientação técnica; e
- microcrédito orientado e outras linhas de crédito.
Incentivo transitório
Um dos instrumentos centrais da política é o Incentivo de Transição Autônoma, benefício financeiro de até R$ 3.242 por beneficiária.
O incentivo será destinado a mulheres sem CNPJ ativo ou com faturamento inferior a 10% do limite da receita anual do MEI, atualmente R$ 8,1 mil.
O recurso poderá ser usado para compra de equipamentos e insumos necessários para começar uma atividade produtiva.
O Sebrae ficará responsável pelo pagamento do benefício e poderá destinar recursos diretamente às beneficiárias.
Esse benefício não será computado como fonte de renda para programas sociais do governo federal nem para o Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Em contrapartida, a beneficiária poderá devolver parte dos recursos ou participar de ações de multiplicação de conhecimento, como capacitar ou orientar outras participantes.
Sistema financeiro
O projeto também estabelece obrigações diretas para o sistema financeiro. Assim, o Poder Executivo deverá fixar diretrizes para ampliar o acesso das beneficiárias ao crédito nas instituições financeiras federais, com condições favorecidas.
Os programas federais de crédito deverão ainda prever metas de destinação de recursos às beneficiárias, com atenção às desigualdades raciais.
Nos programas de crédito incentivado com recursos da União ou garantias federais, ao menos 50% do total de cada instituição participante deverá ser destinado a mulheres, cooperativas majoritariamente femininas ou empresas controladas por mulheres.
O Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe) poderá garantir até 100% do valor financiado em operações contratadas por beneficiárias da política.
O texto também classifica como prática abusiva e discriminatória a recusa ou imposição de condições mais gravosas de crédito motivada pelo sexo da solicitante.
Instituições financeiras infratoras estarão sujeitas a sanções administrativas, civis e penais.
Eixos de atuação
A política se organiza em três eixos principais:
- rural – apoio à mulher empreendedora no campo, com acesso a tecnologia, crédito rural e capacitação, articulado ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf);
- internacionalização – qualificação e apoio a empreendimentos liderados por mulheres para exportação de produtos e serviços;
- proteção integral – atenção específica a mulheres em situação de violência doméstica, com articulação entre acolhimento, apoio psicossocial, jurídico e inserção produtiva.
Beneficiárias do BPC
O projeto prevê ainda proteção para mulheres beneficiárias do BPC.
Durante até três anos, a renda obtida por meio da política não será computada no cálculo da renda familiar.
A mesma regra valerá para cuidadoras de pessoas idosas ou com deficiência, que recebem o BPC.
Outas mudanças
O projeto altera ainda uma série de leis federais para adaptar programas existentes à nova política.
No Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), o limite de empréstimo poderá chegar a 70% da receita bruta anual, com prazo de pagamento de 96 meses e juros limitados a 90% da taxa padrão do programa.
A proposta também altera a Lei de Licitações e Contratos para permitir que editais de obras e serviços de engenharia exijam percentual mínimo de contratação de mão de obra feminina.
No Programa Acredita no Primeiro Passo, as beneficiárias terão acesso a condições favorecidas, como juros reduzidos e limite maior de inadimplência.
Fiscalização
O Tribunal de Contas da União (TCU) deverá apresentar ao Congresso Nacional, a cada dois anos, uma avaliação sobre a implementação e os resultados da política.
Conforme levantamento do Sebrae, cerca de 40% das empresas criadas no Brasil encerram as atividades antes de completar cinco anos. Entre os pequenos negócios, a maior taxa de mortalidade é a dos microempreendedores individuais (29%), seguida pelas microempresas (21,6%) e pelas empresas de pequeno porte (17%).
“Esse ciclo de vida curto das empresas brasileiras é particularmente desafiador para empreendimentos de menor porte, pois enfrentam maior exposição à concorrência, restrições de capital de giro, fragilidade gerencial e dificuldade de acesso a mercados”, afirmou Soraya Santos.
Próximos passos
A proposta deve ser analisada, em caráter conclusivo, pelas comissões de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família; de Indústria, Comércio e Serviços; de Defesa dos Direitos da Mulher; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Como teve a urgência aprovada em junho, poderá ser votada diretamente no Plenário, sem passar antes pelas comissões da Câmara. Para virar lei, a proposta precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado.
Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Natalia Doederlein
Fonte: Câmara dos Deputados


