POLITÍCA NACIONAL
Plano nacional contra feminicídio exige correções urgentes, aponta relatório
POLITÍCA NACIONAL
A primeira avaliação do Plano de Ação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios (PNPF), criado pelo Decreto 11.640, de 2023, revela um quadro de baixa execução das medidas previstas, dificuldades de articulação entre governo federal, estados e municípios e persistência de falhas graves na rede de atendimento às mulheres.
O relatório da senadora Mara Gabrilli (PSD-SP), que o apresentou na Comissão de Direitos Humanos (CDH) na quarta-feira (26), sintetiza diagnósticos, dados oficiais e informações colhidas em audiências, reuniões técnicas e por meio de pedidos de informação feitos ao Poder Executivo. A coordenação do Comitê Gestor do PNPF, informou a senadora, compete à Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, do Ministério das Mulheres.
Segundo a relatora, o documento deixa clara a urgência de corrigir lacunas e de fortalecer a política.
— Não executar um orçamento dessa importância é um atestado de incompetência. Não podemos ver mulheres morrendo por causa de inação — afirmou Mara Gabrilli, salientando que os problemas identificados devem servir como guia para aprimorar o plano e garantir ação conjunta das instituições.
Diagnóstico
O documento foi elaborado com a colaboração do Observatório da Mulher no Senado, responsável pelo levantamento de dados que apontam a permanência de índices elevados de feminicídio no país. Entre 2020 e 2024, o Brasil registrou de 1.355 a 1.459 casos por ano, o equivalente a quatro mulheres assassinadas por dia.
As maiores taxas proporcionais concentram-se nas regiões Centro-Oeste e Norte, enquanto os números absolutos são maiores no Sudeste, em estados populosos como São Paulo e Minas Gerais.
A análise também revela que a maioria das vítimas não acessa a rede especializada diante das agressões sofridas. Além disso, o desconhecimento sobre os serviços é elevado: 38% delas já ouviram falar na Casa da Mulher Brasileira, enquanto 57% conhecem a Casa Abrigo. A subnotificação segue alta — 59% das mulheres não denunciam o agressor.
O relatório detalha uma série de problemas estruturais já mapeados, como a falta de integração entre saúde, segurança, assistência social e o Poder Judiciário; a baixa capilaridade da rede em áreas rurais e remotas; a carência de profissionais capacitados para atendimento com perspectiva de gênero; falhas no cumprimento de medidas protetivas; e desigualdades no atendimento a mulheres negras e povos originários.
A presidente da CDH, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), destacou que o documento expõe dados que “incomodam e entristecem”, e reforçou que a política é necessariamente transversal — tocando inúmeras ações do poder público — e depende de articulação entre vários órgãos.
— Não é fácil executar um plano dessa natureza, mas os apontamentos feitos pela senadora Mara Gabrilli nesse relatório trarão reflexões. Temos um grupo extraordinário nesta comissão para ajudar a construir respostas — ressaltou.
Desafios identificados
O relatório aponta entraves na execução do Plano Nacional, que tem R$ 2,5 bilhões previstos no Orçamento e 73 ações distribuídas em eixos de prevenção primária, secundária, terciária e de produção de dados.
Entre os principais desafios levantados estão:
- Baixa adesão e execução do plano pelos estados: parte das unidades federativas aderiu ao pacto, mas ainda não elaborou planos locais de metas, o que dificulta a implantação nacional da política;
- Contingenciamentos e recusa de recursos federais: em alguns casos, estados deixaram de executar verbas destinadas a estruturas como a Casa da Mulher Brasileira;
- Rotatividade de equipes em ministérios responsáveis pelo acompanhamento das ações;
- Fragilidade da rede psicossocial, com metade das sobreviventes com relatos de ideação ou tentativa de suicídio;
- Déficit de capacitação: cerca de 80% dos profissionais da ponta desconhecem conceitos básicos sobre violência;
- Falta de integração institucional e ausência de fluxos claros de encaminhamento;
- Desigualdades raciais e territoriais, com 85% das vítimas sendo mulheres negras e até 32% dos casos ocorridos em áreas rurais e de floresta.
Para o senador Flávio Arns (PSB-PR), o relatório oferece bases para uma articulação mais ampla.
— Os caminhos definidos aqui servem para estados e municípios. É preciso haver um sistema nacional para que essa cadeia funcione — declarou.
Já o senador Eduardo Girão (Novo-CE) questionou a baixa execução das ações.
— Fiquei estarrecido ao ler alguns trechos. A eficácia é praticamente ínfima. É esse o governo que disse que defenderia as mulheres?
Recomendações
O relatório detalha recomendações para fortalecer o Plano de Ação. Entre elas:
- Ampliar a articulação entre ministérios, estados e municípios;
- Reforçar o financiamento da política de combate ao feminicídio, com garantia de execução do Orçamento;
- Acelerar a criação de sistemas integrados de dados sobre violência;
- Qualificar de forma contínua profissionais da saúde, segurança e assistência social;
- Fortalecer equipamentos como Casas da Mulher Brasileira, abrigos e unidades móveis de atendimento;
- Estabelecer protocolos uniformes de atendimento e de fluxo entre serviços;
- Ampliar ações específicas para mulheres negras, indígenas, quilombolas e rurais;
- Consolidar mecanismos de monitoramento e avaliação do plano.
Ao final da apresentação, com o relatório aprovado pela comissão, Mara Gabrilli defendeu o uso dos dados levantados como base para ação imediata.
— O relatório mostra exatamente o que cada um deve fazer. Detectamos os problemas, agora precisamos trabalhar juntos para enfrentá-los — resumiu.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLITÍCA NACIONAL
Discussão sobre fim da escala de trabalho 6×1 continua em agosto
O fim da chamada escala 6×1, com seis dias de trabalho e um de folga por semana, seguirá em discussão no Senado em agosto, após o recesso parlamentar. A expectativa de alguns senadores é de que a PEC 221/2019 seja votada após a volta dos trabalhos.
Além de acabar coma escala 6×1, a proposta reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salários.
O texto chegou ao Senado no fim de maio, após aprovação na Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre, determinou que a proposta passasse pelas comissões.
O presidente do Senado tem se reunido com os setores interessados no tema para discutir a proposta. No início de julho, a reunião foi com as centrais sindicais, que defenderam o avanço na análise do texto. Antes, em maio, ele já havia recebido integrantes dos empregadores, que defenderam a votação da proposta somente após as eleições.
Agosto
Em entrevista na segunda-feira (13), o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) afirmou que o fim da escala 6×1 é “prioridade absoluta” para o governo e que continuará trabalhando para que a votação ocorra assim que possível.
— Mesmo no período das eleições, o Senado vai funcionar em esforços concentrados e remotamente. Não impede que possamos ainda votar a PEC do fim da escala 6×1 em agosto. Nós vamos, ainda, insistir em avançar sobre essa proposta de emenda à Constituição ainda nesse período.
As semanas de esforço concentrado serão entre 10 e 14 de agosto e entre 31 de agosto e 3 de setembro, e devem coincidir com os esforços concentrados na Câmara, conforme anunciado por Davi Alcolumbre na quarta-feira (15).
— O calendário é exatamente o mesmo que será adotado pela Câmara dos Deputados, permitindo que o Congresso Nacional funcione em plenitude e de modo eficiente e harmônico — informou Davi.
Defesa
Em pronunciamentos recentes, o senador Paulo Paim (PT-RS), um dos principais defensores da proposta, disse ter esperança de que a votação ocorra em agosto. Para ele, o debate sobre a redução da jornada não “pertence” ao governo, à oposição e nem aos partidos políticos, e sim ao povo.
— Tenho muita esperança de que a PEC vai ser votada no mês de agosto, porque, com certeza, o trabalhador brasileiro sabe que não vai nadar, nadar e morrer na beira da praia. Espero que esta Casa compreenda a dimensão histórica dessa decisão — defendeu.
Para Paim, o fim da escala 6×1 fará a produtividade do trabalhador brasileiro aumentar, ao invés de diminuir. Ele argumentou que países com jornadas menores apresentam índices mais elevados de produtividade por hora trabalhada.
Também em defesa do avanço na análise da PEC, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) comparou a jornada dos trabalhadores à dos parlamentares. Ele lembrou que o período de campanha eleitoral começa em agosto e disse que o eleitor precisa cobrar seus representantes.
— Muitos que vão aí pedir voto para você não querem votar o fim da escala 6×1, querem fazer você trabalhar igual a um condenado no 6×1, e nós aqui trabalhando, durante este ano de 2026, o que não vai dar nem um mês de trabalho, do jeito que está aí — criticou.
Eleições
Outros senadores demonstram preocupação com os efeitos da PEC e defendem que a votação fique para depois das eleições. Em sessão temática no início de julho, o líder da oposição, senador Rogerio Marinho (PL-RN), defendeu o amadurecimento do debate e a discussão do tema fora do período eleitoral.
— Não é proibido, não é interditado discutirmos jornada de trabalho. Pelo contrário, é uma discussão que tem que acontecer. Mas por que agora? Por que neste momento? — questionou o senador.
No mesmo debate, o senador Jayme Campos (União-MT) afirmou que votará a favor da PEC, mas defendeu que o debate seja feito com serenidade e que todos os setores sejam ouvidos para que a solução seja equilibrada.
— Estamos falando da vida de milhões de brasileiros, de tempo dedicado à família, ao descanso, à qualificação profissional e, ao mesmo tempo, da competitividade das empresas e da capacidade de gerar empregos. É justamente por isso que este debate exige serenidade, responsabilidade e diálogo — ponderou.
Outras propostas
Também na sessão temática, o senador Jaime Bagattoli (PL-RO) criticou a falta de estudos de impacto econômico e social da medida durante a análise na Câmara e afirmou que a PEC vai ter consequências negativas na economia. Ele defendeu a aprovação de outra proposta em análise no Senado.
— Defendemos a PEC 12/2026, que permite ao trabalhador negociar uma jornada flexível de acordo com as suas necessidades. Direitos como férias, décimo terceiro e FGTS seguirão de forma proporcional à jornada acordada — garantiu.
A proposta foi apresentada pelo senador Rogerio Marinho logo após a chegada da PEC 221 ao Senado. Pela proposta, seria possível escolher entre o regime comum previsto pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou um regime flexível baseado em horas trabalhadas. A PEC deixa claro que o contrato individual prevalece sobre possíveis acordos coletivos. Benefícios como FGTS, férias e 13º salário também seriam proporcionais às horas trabalhadas.
Na Câmara, a PEC 221 era analisada junto com outra proposta, a PEC 8/2025, da deputada Érika Hilton (PSOL-SP), que previa uma carga máxima de 36 horas em quatro dias de trabalho. O texto foi arquivado.
Outro projeto, o PL 1.838/2026, foi apresentado em abril pelo Executivo. Ele define em 40 horas semanais o limite da jornada normal de trabalho e garantir ao trabalhador dois repousos semanais remunerados de 24 horas consecutivas. Após a aprovação da PEC 221, o governo retirou o pedido de urgência para o projeto, que segue em análise na Câmara.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado


