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Café recua nas bolsas internacionais e mercado brasileiro encerra semana com negociações travadas
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O mercado brasileiro de café deve encerrar a semana com baixo volume de negócios, refletindo a combinação de queda nas bolsas internacionais, avanço da colheita brasileira e maior cautela dos produtores diante das oscilações cambiais e climáticas.
Nesta sexta-feira (15), os contratos futuros do café abriram em baixa tanto na Bolsa de Nova York quanto em Londres, pressionando os preços do arábica e do robusta no mercado físico nacional. A movimentação acompanha ajustes técnicos dos investidores, além da expectativa de maior oferta com a entrada da safra brasileira.
Na Bolsa de Nova York (ICE Futures US), o contrato julho/2026 do café arábica operava com queda de 1,31%, cotado a 277,00 centavos de dólar por libra-peso. Na sessão anterior, o vencimento já havia encerrado em baixa de 1,8%, aos 275,70 cents/lbp.
Os demais contratos também registraram perdas no início do pregão. O julho/26 recuava para 273,30 cents/lbp, enquanto setembro/26 caía para 266,10 cents/lbp e dezembro/26 era negociado a 259,55 cents/lbp.
Em Londres, o café robusta seguiu o mesmo movimento negativo. O contrato julho/26 era negociado a US$ 3.417 por tonelada, enquanto setembro/26 recuava para US$ 3.303 por tonelada.
Mercado físico trava com pressão dos compradores
No Brasil, compradores reduziram as ofertas acompanhando as perdas externas. Segundo agentes do setor, os produtores seguem cautelosos e negociam apenas de forma pontual, aguardando melhores oportunidades de comercialização.
O mercado relata que os compradores não acompanham integralmente os movimentos de alta das bolsas e intensificam a pressão sobre os preços quando há quedas internacionais, o que acaba travando os negócios.
Apesar da lentidão nas negociações, o interesse pela compra de café permanece ativo para diferentes padrões de qualidade, especialmente para atender à demanda de exportação.
No sul de Minas Gerais, o café arábica bebida boa com 15% de catação foi negociado entre R$ 1.740 e R$ 1.745 por saca, abaixo dos R$ 1.780 a R$ 1.785 registrados anteriormente.
No Cerrado Mineiro, o arábica bebida dura com 15% de catação caiu para R$ 1.760/R$ 1.765 por saca, contra R$ 1.800/R$ 1.805 no comparativo diário.
Já o arábica tipo rio 7 na Zona da Mata mineira recuou para R$ 1.160/R$ 1.165 por saca.
No Espírito Santo, o conilon tipo 7 em Vitória foi cotado entre R$ 945 e R$ 950 por saca, enquanto o tipo 7/8 ficou entre R$ 940 e R$ 945.
Clima segue no radar do mercado cafeeiro
As condições climáticas continuam sendo acompanhadas de perto pelos agentes do setor. De acordo com previsões meteorológicas, as chuvas devem se concentrar entre o norte do Espírito Santo e o sul da Bahia nos próximos dias.
Uma nova frente fria também deve provocar precipitações em áreas produtoras do Sudeste, especialmente em São Paulo e no sul de Minas Gerais entre o fim de semana e o início da próxima semana.
As temperaturas permanecem mais baixas no centro-sul do Brasil, mas sem risco significativo de geadas para as lavouras de café. As mínimas podem ficar próximas de 10°C em regiões mais frias de São Paulo e do sul mineiro.
Para a próxima semana, a previsão indica continuidade das instabilidades climáticas sobre o Sudeste, com chuvas moderadas em áreas produtoras de São Paulo, Sul de Minas, Zona da Mata, Triângulo Mineiro, Rio de Janeiro e Espírito Santo.
Estoques certificados permanecem estáveis
Os estoques certificados de café nos armazéns credenciados da ICE Futures permaneceram estáveis em 471.985 sacas de 60 quilos na posição de 14 de maio de 2026.
Dólar sobe e cenário externo pressiona commodities
O mercado cambial também influencia o comportamento do café. O dólar comercial operava em alta de 1,20%, cotado a R$ 5,0491, enquanto o Dollar Index avançava para 99,194 pontos.
No cenário internacional, as principais bolsas asiáticas encerraram o dia em baixa, com destaque para China (-1,02%) e Japão (-1,99%). Na Europa, os índices também registravam forte recuo, com Paris caindo 1,59%, Frankfurt 1,92% e Londres 1,89%.
Já o petróleo operava em alta, com o WTI para julho negociado próximo de US$ 99,84 por barril, avanço de 3,05%, movimento que mantém atenção dos mercados globais sobre inflação e custos logísticos.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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Antônio José dos Santos, o “Zé da baga”: a memória viva da pesca em Balneário Camboriú (SC)
A cidade mudou com o tempo. As ruas ganharam novos prédios, o comércio se expandiu e o litoral passou a viver uma rotina intensa, de sol, movimento e turismo. Balneário Camboriú em meio às transformações mantém uma linha que não se rompe: a pesca como tradição, trabalho e identidade.
No vai e vem da praia, há um nome que atravessa décadas, Antônio José dos Santos, conhecido por muitos como “Zé da baga”, apelido herdado de seu pai. Nascido em 17 de novembro de 1952, ele carrega no corpo e na voz a marca de quem viveu mais de 60 anos de pesca. Para ele, o mar não é paisagem, é sustento, é história, é energia. “A pesca é a fonte de energia na vida. É a riqueza dos pescadores, a vida de quem sobrevive da pesca.”
A narrativa do Zé da baga começa antes de Balneário Camboriú virar cidade do jeito que se vê hoje. Na sua época, não havia o cenário de fartura que muita gente imagina quando ouve “pesca”. Havia dificuldade, mas também havia esforço.
Da “roça” na praia ao aprendizado ensinado na comunidade
Zé da baga, tataraneto de pescador, lembra que, na juventude, “em torno da praia era roça e mato”. Para buscar os peixes, vinham de carroça e de carro antigo no caminho até o ponto onde a pesca começava. Era um tempo em que a sobrevivência dependia do que o mar entregava.
E foi assim que ele aprendeu, não só na família, mas na comunidade. Com 14 anos, um primo ensinou o ofício onde viviam, no litoral norte catarinense. Desde então, a pesca passou a ser mais do que trabalho, virou herança. “Desde meus pais e meus avôs eu segui com a pesca. Toda a vida foi isso”, conta Zé com a voz embargada.
As gerações anteriores, segundo ele, também eram todas de Balneário Camboriú, no bairro, Antônio diz que a história da pesca se confundia com a história das famílias. E é nesse ponto que o rancho e as redes ganham importância não como equipamentos, mas como memória viva.
O rancho da Selma e as redes de origem familiar
Quando se fala em pesca tradicional em Balneário Camboriú, muitos citam lugares e famílias. Um dos símbolos é o Rancho da Selma, onde a estrutura e as redes guardam histórias que atravessam gerações.
Zé da baga explica que a rede que existe no rancho tem ligação com famílias tradicionais da cidade. A rede é de origem da família Damasceno, e lembra que, por último, a rede era do Fernando, mas antes pertencia ao pai dele, José Fernandes Damasceno, conhecido como “Zé da Bilica”.
Assim, o rancho não é só um ponto físico, mas um arquivo de relações, parentesco e continuidade.
Tecnologia para enxergar: a arte de ler vento, lua e cardume
Com o passar dos anos, algumas coisas mudaram. Zé da baga reconhece que hoje existe tecnologia e que ela pode ajudar a entender movimentos no mar: “Tecnologia ajuda um pouco pra ter noção do movimento dos cardumes, conseguimos ver o ponto certo onde eles estão para cercar com a rede.”
Mesmo com instrumentos modernos, ele defende que a pesca continua sendo sobretudo interpretação do ambiente. O melhor momento, para ele, varia conforme lua, vento e cardume, o peixe “responde” ao encontro entre mar, céu e condições do dia.
Ele aponta padrões que aprendeu na prática, como pescar no início da manhã ou início da tarde, pescar durante a lua nova e lua cheia, verificar os ventos específicos norte, nordeste e sudeste, “esses três ventos puxam mais o peixe pra praia.”
E existe ainda outro ingrediente, quando o mar muda o comportamento, a pesca se adapta. Zé da baga relata que, apesar de ter usado diferentes técnicas ao longo da vida, como rede de arrasto, malha e espinhel, nem sempre era sobre “estar ideal”, mas sobre sair quando o mar “deixava” e quando o conjunto de condições fazia sentido.
A pescaria de 3 mil peixes que ficou como marco
No repertório de histórias do Zé da baga, uma se destaca, em Balneário Camboriú, durante um cerco que virou referência, “a pescaria mais marcante da vida foi há uns 10 anos quando pegamos 3 mil peixes.”
A cena, descrita sem exagero e sem romantizar o esforço, representa o ápice do trabalho coletivo e da precisão. Não era apenas sorte, era rede no tempo certo, mar adequado e equipe sabendo o que estava fazendo.
Perigo no mar e a persistência depois da doença
A pesca também traz risco. Zé já passou por momentos em alto-mar em que o mar parecia maior do que ele, chamado, na linguagem dos pescadores, de “mar ruim”, com ondas gigantes e ventos muito fortes. Ele também guarda uma memória dura, no tempo dele, não havia socorro como existe hoje, nem estrutura semelhante.
Mesmo assim, a vida cobrou outra parte, dois AVCs e agravamento de outras doenças o afastaram da pesca por dois anos. Hoje, ele vai à praia com mais cautela, pescando às vezes e vendendo apenas para ajudar a família, mas sem abandonar totalmente o contato com o mar. “Eu fiquei doente e tive que parar um pouco, mas a pesca é tudo. Não tem nada na minha vida que represente mais do que a pesca.” ressalta Zé que agora exerce a função de olheiro do cardume e em algumas vezes sobe na canoa para guiar.
Quando a safra chega, a convivência fica tensa
O calendário do Zé da baga também tem começo e fim. Para ele, o outono é quando a tainha começa a aparecer na praia, indo até o final do inverno.
Mas a safra é também o momento em que aumentam os conflitos. Salienta que, para ele, o que mais atrapalha são jetski, lancha e stand up, além da presença de banhistas fora do limite. Na sua visão, o problema não é apenas o número de pessoas, é o impacto no mar, o barulho e a desorganização do espaço tradicional de pesca. “Toda esta interferência espanta os peixes.”, salienta Zé.
Ele defende, com firmeza, três medidas principais, conscientizar os motoristas de jetski a respeitar o espaço de pesca na época da tainha, manter barcos pesqueiros e camaroeiros em alto mar, sem interferir na pesca da costa e ter fiscalização eficaz para impedir que banhistas e embarcações desrespeitem a área dos pescadores, durante o período.
A cidade e a nova geração: o pedido de ensino, apoio e futuro
Zé da baga acredita que o problema da nova geração não é que a juventude “não presta”, mas que a pesca perdeu interesse porque falta incentivo e oportunidade de aprender, “deveriam colocar uma escola de aprendiz, uma bateira (um tipo de pequena embarcação) com remo pequeno, ensinar a remar, ensinar a jogar a rede”.
Ele defende projetos com políticas públicas que cheguem a adolescentes de 13 e 14 anos, com aulas práticas diárias, tempo suficiente para ensinar o básico com acompanhamento, porque, “só se aprende tendo um professor direcionado, aulas de 2h por dia já atingiria a nova geração”.
Mesmo preocupado, Antônio não desanima, para ele, a pesca precisa continuar “seja velho, seja novo”, e a continuidade, segundo o próprio pescador, já existe dentro das famílias.
A tradição que não pode “morrer na praia”
Mesmo quando muitos deixam a pesca, Zé diz que ainda há quem siga. Ele relata que tem filhos pescando e que hoje exerce papel de monitor, ajudando a transmitir o que sabe.
Ele também cita famílias que, em Balneário, sustentaram e sustentam essa cultura, as famílias Correia, Damasceno e a sua família Venâncio. Zé demonstra certa preocupação quando diz que nem todo mundo manteve o caminho, “há famílias em que netos e bisnetos já não querem seguir”. Ainda assim, ele deixa uma mensagem que soa como alerta e compromisso com a memória coletiva da cidade: “Essa tradição não pode ‘morrer na praia’.”
Ao final, ao falar do mar e da vida, Zé da baga não descreve apenas uma profissão, ele narra uma forma de pertencimento. Em Balneário Camboriú, onde o litoral cresce e muda, a pesca permanece, porque ainda existe quem a defenda com histórias, com técnica e com a insistência de quem sabe que o futuro precisa ouvir o passado.
ÉLEN GORSKI
Ministério da Pesca e Aquicultura










