AGRONEGOCIOS
Estão disponíveis as agromensais de agosto/2022
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Cepea, 08/09/2022 – O Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, disponibiliza hoje as hoje as agromensais de agosto de 2022.
Abaixo, alguns trechos das análises mensais:
AÇÚCAR: As cotações do açúcar cristal recuaram em agosto. O movimento foi atribuído à concentração das negociações envolvendo o cristal tipo Icumsa 180, que vem sendo mais ofertado nesta safra 2022/23 a valores mais baixos. Já a disponibilidade do cristal tipo Icumsa 150 seguiu restrita, e os preços mantiveram-se firmes, uma vez que usinas já venderam boa parte da produção deste tipo de açúcar via contratos, tanto para o mercado interno quanto para o externo. Outro fator para a queda dos preços no mês foi o recuo da demanda, visto que compradores afirmaram ter estoques suficientes para continuar a produção. Além disso, há expectativa de aumento no mix de produção para o açúcar pelas usinas de São Paulo, considerando que a redução na alíquota de impostos sobre a gasolina diminui a competitividade dos preços do etanol. O Indicador do Açúcar Cristal CEPEA/ESALQ (estado de São Paulo) recuou 4,86% em agosto, fechando a R$ 125,07/saca de 50 kg no dia 31. A média mensal foi de R$ 128,87/saca de 50 kg, próxima da registrada em julho (R$ 128,86/saca de 50 kg) e 0,35% acima da média de agosto/2021 (R$ 128,43/saca de 50 kg), em termos nominais.
ALGODÃO: Depois de acumularem quedas por dois meses consecutivos, os preços do algodão em pluma no Brasil voltaram a subir em agosto e retornaram aos patamares observados no final de junho. Essa recuperação esteve atrelada à posição firme de vendedores, que estiveram atentos às fortes valorizações dos contratos na Bolsa de Nova York (ICE Futures) e, parcialmente, da paridade de exportação. A baixa oferta no spot brasileiro, sobretudo de pluma de melhor qualidade, também reforçou o movimento de alta nos preços. Ressalta-se que o beneficiamento no Brasil não chegou nem na metade, e agentes estão focados no cumprimento de contratos a termo. Entre 29 de julho e 31 de agosto, o Indicador CEPEA/ESALQ, com pagamento em 8 dias, avançou 12,08%, fechando a R$ 6,7107/lp no dia 31. Em agosto, o preço no Brasil ficou, em média, 12,6% superior à paridade de exportação. A média do Indicador no mês, de R$ 6,3239/lp, está 4,59% acima da de julho/22 e 10,09% superior à de agosto/21, em termos reais (os valores foram deflacionados pelo IGP-DI de julho/22).
ARROZ: Ao longo de agosto/22, as cotações do arroz em casca apresentaram movimento de queda no Rio Grande do Sul. No entanto, a alta observada na primeira dezena do mês garantiu aumento na média frente à de julho. A menor disponibilidade interna e a resistência vendedora contribuíram para a sustentação dos preços. A média mensal de agosto/22 do Indicador CEPEA/IRGA-RS, de R$ 76,47/saca de 50 kg, ficou 0,15% superior à de julho/22, sendo, também, a mais alta desde agosto de 2021, quando foi de R$ 77,18/sc.
BOI: Os valores médios mensais da carne bovina (carcaça casada), negociada no mercado atacadista da Grande São Paulo, atravessaram os oito primeiros meses de 2022 em movimento de queda. A oferta de animais para abate seguiu baixa na maior parte deste ano, enquanto as exportações registraram desempenho recorde. Assim, o cenário de desvalorização da carne está atrelado ao baixo consumo da proteína bovina no mercado brasileiro, devido ao fragilizado poder de compra da população nacional, sobretudo em decorrência da elevada inflação. No acumulado deste ano (entre dezembro/21 e agosto/22), a carcaça casada bovina registrou desvalorização de 9,5%, em termos reais (os valores foram deflacionados pelo IGP-DI). Considerando-se a série de dados do Cepea, a média de agosto ficou em R$ 19,94/kg, sendo 3,4% inferior à de julho/22, 9% abaixo da de agosto/21 e, também, a menor média real desde outubro de 2019, quando esteve em R$ 17,95/kg. Igualmente, o valor médio da carcaça também não operava abaixo de 20 Reais/kg desde outubro de 2019. Quanto ao boi gordo, a média de agosto foi de R$ 313,39, com quedas de 2,86% no comparativo de julho/22 e de 8,5% frente ao de agosto/21.
CAFÉ: Apesar da forte oscilação, as cotações domésticas do café arábica finalizaram agosto em alta. O Indicador CEPEA/ESALQ do arábica tipo 6, posto na capital paulista, fechou a R$ 1.344,20/saca de 60 kg no dia 31, aumento de 43,31 Reais/sc (ou de 3,3%) em relação a 29 de julho (último dia útil do mês). Mesmo com o avanço no acumulado do mês, o Indicador variou quase 100 Reais/saca em agosto. O menor fechamento foi no dia 5, de R$ 1.261,57/sc, e o maior, no dia 26, de R$ 1.351,64/sc. No começo do mês, as cotações foram pressionadas pelo avanço da colheita no Brasil e pelo temor de uma nova recessão global. Entretanto, as preocupações com a falta de chuvas após as floradas precoces da safra 2023/24 impulsionaram os valores de forma expressiva na segunda quinzena. Alguns colaboradores consultados pelo Cepea, inclusive, alertaram sobre o risco de aborto das primeiras flores em algumas regiões, caso chuvas mais consistentes não sejam verificadas.
ETANOL: Os preços dos etanóis hidratado e anidro seguiram em queda expressiva no mercado paulista em agosto. Além de este ser considerado período de pico de colheita na região Centro-Sul, a atuação pontual de compradores pressionou os valores dos biocombustíveis. Assim, a média do Indicador CEPEA/ESALQ do preço do hidratado das semanas cheias de agosto foi de R$ 2,5970/litro, recuo de 11,3% na comparação com o mês anterior. No mesmo comparativo, a média do Indicador CEPEA/ESALQ do anidro (considerando-se somente o mercado spot) foi de R$ 3,1442/litro, 9,4% inferior à de julho.
FRANGO: A maior oferta de carne de frango no mercado doméstico e a menor liquidez da proteína pressionaram os valores desta carne em agosto em quase todas as regiões acompanhadas pelo Cepea. No atacado da Grande São Paulo, o valor do frango inteiro – tanto resfriado quanto congelado – registrou média de R$ 7,70/kg no último mês, quedas de 0,4% e de 0,8%, respectivamente, frente às médias de julho.
MILHO: Os preços do milho flutuaram ligeiramente em agosto, mas fecharam o mês em alta no mercado spot da maioria das regiões acompanhadas pelo Cepea. As cotações domésticas foram sustentadas pela valorização do cereal nos portos, refletindo o movimento internacional, e pelo intenso ritmo das exportações em agosto. No entanto, as altas acabaram sendo limitadas pela maior oferta da segunda safra. No front externo, os valores foram impulsionados por notícias indicando possíveis reduções na produtividade das lavouras dos Estados Unidos, por preocupações relacionadas à seca na Europa e na China e pela diminuição dos embarques pelo Mar Negro. Atentos a esse cenário, muitos vendedores brasileiros também se voltaram às negociações nos portos. Do lado comprador, consumidores ainda detinham estoques em agosto, e relataram dificuldades pontuais em realizar novas aquisições. Assim, no acumulado de agosto, o Indicador ESALQ/BM&FBovespa se valorizou 1,2%, fechando a R$ 83,94/saca de 60 kg no dia 31. A média mensal, de R$ 82,52/sc, aumentou 0,7% sobre a de julho. Na média das regiões acompanhadas pelo Cepea, os valores acumularam altas de 2,3% no mercado de lotes (disponível) e de 2,5% no de balcão (ao produtor) no acumulado do mês. Quando comparadas as médias mensais, as valorizações foram de 0,9% e de 1,6%, respectivamente.
OVINOS: As cotações do cordeiro vivo e da carcaça ovina subiram na maioria das regiões acompanhas pelo Cepea em agosto. O impulso veio da melhora na demanda doméstica e da menor oferta de animais no mercado. Mesmo nos estados onde o preço ficou estável, como Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, colaboradores consultados pelo Cepea também relataram melhora nas vendas. O setor tem boas expectativas para os próximos meses, visto que a demanda pela carne ovina tende a aumentar para atender o consumo típico das festas de final de ano. Em Mato Grosso, a cotação média do animal vivo foi de R$ 10,75/kg em agosto, avanço expressivo de 19,44% em relação ao mês anterior. No Paraná e em São Paulo, os preços subiram 2,47% e 2,32%, respectivamente, com o ovino cotado, em média, a R$ 13,25/kg no mercado paranaense e a R$ 12,33/kg no paulista. Em Mato Grosso do Sul e no Rio Grande do Sul, o valor do cordeiro permaneceu estável, a R$ 11,50/kg e R$ 10,00/kg, na mesma ordem.
SOJA: A menor demanda externa e a cautela dos compradores domésticos, especialmente na primeira quinzena de agosto, pressionaram as cotações do complexo soja no Brasil. A forte desvalorização cambial (US$/R$) afastou importadores do País, acentuando o movimento baixista. O dólar registrou queda de 4,1% entre as médias de julho e agosto, a R$ 5,15 no último mês. Em agosto, o Brasil exportou o menor volume de soja desde janeiro deste ano. Segundo a Secex, 6,09 milhões de toneladas de soja saíram dos portos brasileiros, quantidade 18,83% abaixo da escoada em julho e 6,03% inferior à embarcada em agosto/21. Os Indicadores ESALQ/BM&FBovespa – Paranaguá (PR) e CEPEA/ESALQ – Paraná da oleaginosa registraram quedas de 1,9% e de 1,5% entre as médias de julho e de agosto, com respectivos fechamentos de R$ 187,18/sc e de R$ 181,86/sc de 60 kg. Na média das regiões acompanhadas pelo Cepea, as baixas foram de 1,9% no mercado de balcão (pago ao produtor) e de 1,3% no de lotes (negociações entre empresas).
TRIGO: A semeadura da safra de trigo deste ano foi encerrada em agosto, e estimativas indicam possibilidade de produção recorde no Brasil. Esse cenário vem pressionado as cotações domésticas do trigo. A Conab reajustou novamente as estimativas de área e de produtividade e, consequentemente, da produção da safra deste ano do Brasil (temporada 2022/23, que se iniciou em agosto). A nova previsão é de que sejam colhidas 9,16 milhões de toneladas, alta de 19,3% em comparação à temporada anterior (2021/22). Isso é resultado do aumento de 8% na área com a cultura, somando 2,96 milhões de hectares, e da produtividade 10,5% maior frente à 2021/22, indo para 3,096 toneladas/hectare.
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Fonte: CEPEA
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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro


