POLITÍCA NACIONAL
Debatedores na CAE defendem mineração como estratégia para energia limpa
POLITÍCA NACIONAL
Em reunião da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) nesta terça-feira (1º), especialistas defenderam a exploração de minerais para o Brasil ocupar posição estratégica global na transição energética esperada para as próximas décadas. Senadores criticaram o rigor das políticas ambientais que estabelecem regras para a atividade.
Foram duas audiências públicas em sequência: uma sobre o uso de minerais para a transição energética, e outra sobre os desafios legislativos na regulação do setor. A programação atendeu a requerimento do senador Renan Calheiros (MDB-AL), presidente da comissão (REQ 46/2025 – CAE). Renan afirmou que o debate baseará discussões futuras sobre os minerais críticos (como lítio, cobalto e terras-raras) e estratégicos (como urânio, nióbio e cobre), que são essenciais para a economia e a tecnologia e que têm risco de escassez.
— Na prática, os minerais críticos e estratégicos são utilizados na produção de cabos de fibra, equipamentos médicos, equipamentos de defesa, usinas nucleares, smartphones, computadores e tecnologias necessárias à transição energética. Elementos [deles] são essenciais para a produção de lentes de câmeras e telescópios, baterias, vidros especiais, ligas metálicas, agentes oxidantes, sistemas de comunicação, turbinas aeroespaciais. Conforme o Banco Mundial, a produção pode aumentar em quase 500% até 2050, para atender à crescente demanda por tecnologia de energia limpa. Faz-se necessária a formulação de políticas públicas eficientes voltadas ao desenvolvimento do setor no Brasil, ensejando legislações e regulações específicas — explicou Renan.
Poder público
O presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Raul Jungmann, afirmou que o tema é central nas discussões internacionais de alto escalão. O Ibram é uma organização privada que representa empresas do setor. Ele apontou que as reuniões realizadas em junho entre os países membros do G7 — as principais economias entre as democracias liberais — geraram um plano de ação para os minerais críticos.
— O chamado Norte Global está se organizando para efetivamente assegurar o suprimento dos minerais críticos e estratégicos. E nós? Será que vamos alcançar uma transição justa ou teremos um desvio que pode levar ao neocolonialismo? Temos apenas 27% do território nacional mapeado. O Brasil não sabe o que o Brasil tem. Os minerais críticos são um passaporte para o futuro. Precisamos ter políticas definindo exatamente para onde queremos ir e o que queremos fazer — disse Jungmann.
Ele defendeu a criação de políticas nacionais sobre o tema, como o projeto de lei que regulametna a exploração de terras-raras (PL 2.210/2021). Segundo Jungmann, que já foi ministro da Defesa, o país possui 18 minerais dos 21 minerais necessários para a implementação de fontes de energia renováveis, como eólica, solar e hidrelétrica. Em sua estimativa, o setor deve receber cerca de US$ 68 bilhões de dólares entre 2025 e 2029.
O diretor-geral da Agência Nacional de Mineração (ANM), Mauro Henrique Moreira Sousa, afirmou que os três principais órgãos públicos que atuam no setor recebem recursos insuficientes para o Brasil desenvolver uma indústria forte. Trata-se do Serviço Geológico do Brasil (SGB), empresa estatal de mapeamento de minerais no país; do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), instituição que realiza estudos sobre o processamento de minerais; e a própria ANM, que fiscaliza as empresas do setor.
— Se o poder público não tiver um olhar criterioso, a gente não consegue desenvolver a mineração de forma adequada. Para além de receber o mineral em si, o conhecimento geológico é um ativo do país. Nós precisamos ter conhecimento para nos posicionarmos do ponto de vista da segurança e soberania. A ANM tem recebido delegações de várias partes do mundo, todas interessadas [nos recursos]. Nós precisamos ter conhecimento geológico para que a gente possa também exercitar essa soberania e o nosso poder de barganha.
Exportação
O representante do Ministério de Minas e Energia, Rodrigo Toledo Cabral Cota, afirmou que a transição energética — que ocorrerá por meio da troca de carros a combustão por elétricos e da geração elétrica de fontes energéticas — depende da produção de baterias, painéis solares e outros sistemas de apoio que utilizam os minerais críticos. Cota é diretor do Departamento de Transformação e Tecnologia Mineral.
Segundo ele, a Ásia concentra a extração e processamento desses minerais, o que representa uma oportunidade para o Brasil oferecer esses minérios a países que desejam diversificar sua cadeia de produção, mas também signica o desafio de competir com países como a China.
— O Brasil tem a segunda maior reserva de grafite e a segunda maior reserva de terras-raras, cujas produções são dominadas pela China. Mas a China tem escala, tem tecnologia, tem apoio público às empresas. Competir com eles não é uma coisa tão simples. Se a gente quer desenvolver essa indústria, temos que dar um apoio público decidido. Esse setor precisa ser desonerado. Precisa ter apoio de financiamento, para o desenvolvimento de tecnologia e de parceria com outros países que estão buscando alternativas.
Cota ainda apontou que o maior gargalo da transição energética é o cobre, cuja mineração, até 2040, será maior do que toda a extração feita até então na história. Outros minerais críticos citados por ele foram o lítio, níquel e cobalto.
Na avaliação do senador Rogério Carvalho (PT-SE), o Brasil precisa garantir o fortalecimento da indústria de forma que o país não se torne apenas um exportador dos minerais brutos, mas que domine as tecnologias de processamento desses recursos. Para isso, ele apresentou um projeto que estabelece regras para a exportação de terras-raras não transformados (PL 2.197/2025).
— Precisamos de regras que obriguem a nós mesmos a fazer o beneficiamento desses minérios, pelo menos uma grande parte deles, para incorporar tecnologia e fazer o investimento necessário para que a gente domine essa tecnologia — alertou.
Barreiras legais
O senador Omar Aziz (PSD-AM) criticou a rigidez com que a legislação ambiental trata a exploração mineral, principalmente em regiões florestais como a Floresta Amazônica. Segundo ele, o estado do Amazonas possui grandes reservas de fósforo e potássio, necessários para fertilizantes agrícolas. Por não ser autossuficiente, o país saiu prejudicado com a guerra entre a Rússia, seu principal fornecedor, e a Ucrânia.
— Nós cometemos erros aqui ao longo do tempo. Entramos numa onda [de políticas ambientais] anti-Brasil que serve para tirar foto na França e o povo brasileiro que se lasque. O Brasil não cresce mais porque você não vê a equipe ambiental sentar com o agronegócio, com a mineração, com aqueles que podem produzir riqueza para o Brasil, e dizer o que é que nós precisamos fazer para controlar qualquer tipo de problema [ambiental]. São xiitas a serviço de outros países.
O senador Jaime Bagattoli (PL-RO) defendeu a exploração de minerais pelos povos indígenas em suas terras. Em sua avaliação, os entraves para essas atividades impedem o desenvolvimento econômico e social das tribos.
— Nós temos que dar dignidade a nossos indígenas. Eu não consegui entender até hoje porque fazê-los ficarem na miséria.
Já a co-presidente da empresa Sigma Lithium, Ana Cabral-Gardner, defendeu que mudanças constantes na legislação e “políticas nacionalistas” causam insegurança jurídica e afastam investimentos no setor, que já demanda muito tempo para dar lucro aos investidores, muitas vezes mais de uma década.
— Fazer desenvolvimento sustentável significa que o dinheiro entra, gera lucro operacional, mas não lucro líquido: você reinveste e reinveste. Isso é muito fácil de falar e muito difícil de fazer.
Os senadores Jorge Seif (PL-SC) e Hamilton Mourão (Republicanos-RS) também defenderam regras que facilitem a exploração de minérios no Brasil.
Sustentabilidade
A coordenadora acadêmica de estudos sobre transição energética na Fundação Getúlio Vargas (FGV), Isabel Veloso, apontou que a demanda global pelos minerais exige um processo ambientalmente sustentável. Segundo ela, o Brasil atende aos requisitos e, assim, torna-se competitivo.
— A mineração é geralmente associada à destruição da natureza. Na verdade, é uma prerrogativa para a transição energética, para limitar o aquecimento global. A mineração tem que ser sustentável, tudo produzido de forma verde. Esse é um movimento que já se iniciou no Brasil. Existem diversas empresas sérias que, mesmo sem ter obrigações demarcadas nas normas e na regulação, já implementam políticas voltadas para mineração sustentável. Mas seria adequado o Poder Legislativo também pensar em como regular essa questão.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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Educação: Senado aprovou novo PNE, piso do professor e expansão do ensino federal
O primeiro semestre de 2026 foi marcado por uma intensa agenda legislativa na área da educação. O Senado participou da construção do novo Plano Nacional de Educação (PNE) e aprovou medidas de valorização dos professores, expansão da rede federal de ensino e inclusão educacional.
As propostas abrangem diferentes etapas da formação escolar e universitária e buscam ampliar o acesso ao ensino, melhorar sua qualidade e orientar as políticas públicas para os próximos anos.
PNE 2026-2036
A principal medida do semestre foi a aprovação do novo Plano Nacional de Educação, sancionado como Lei 15.388. O plano estabelece as diretrizes que orientarão as políticas educacionais do país até 2036, com foco na ampliação do acesso à educação, na melhoria da qualidade do ensino e na redução das desigualdades.
Originado do PL 2.614/2024, o novo PNE reúne 19 objetivos e 73 metas organizadas em três eixos: acesso, qualidade e equidade. Entre os principais compromissos, estão a universalização da pré-escola para crianças de 4 e 5 anos, a ampliação do atendimento em creches para 60% das crianças de até 3 anos e a alfabetização de todos os estudantes até o fim do 2º ano do ensino fundamental.
Na avaliação de Luana Bergmann, consultora legislativa em educação do Senado, entre todas as medidas aprovadas pelos senadores no semestre, o PNE é a que tem o maior potencial de alcance, por definir os rumos da política educacional brasileira para os próximos dez anos.
— Foi um passo muito relevante, uma nova “bússola”, um “GPS” renovado para a educação nacional. Isso porque o novo PNE 2026-2036 está bastante sintonizado tanto com os desafios históricos quanto com os desafios do presente e do futuro, com metas voltadas para tecnologias, conectividade, mudanças climáticas, diferentes modalidades da educação e participação social.
Além das metas educacionais, o plano prevê a ampliação gradual do investimento público em educação, dos atuais 5,5% do produto interno bruto (PIB) para 10%, ao final da vigência do plano. Também fortalece a política de educação em tempo integral, com a meta de que, até 2036, 65% das escolas públicas ofereçam jornada mínima de sete horas diárias, atendendo metade dos estudantes da educação básica.
A participação dos senadores começou antes mesmo da chegada formal da proposta à Casa. Entre 2024 e 2025, a Comissão de Educação e Cultura (CE) do Senado promoveu 23 audiências públicas sobre o tema. Somando os debates, foram 34 audiências e mais de mil emendas analisadas durante a tramitação.
O colegiado também instalou uma subcomissão para acompanhar a execução do plano e monitorar seus indicadores ao longo dos próximos anos.
Presidente da Comissão de Educação e relatora do projeto de lei do novo PNE, a senadora Teresa Leitão (PT-PE) ressaltou que o plano foi amplamente discutido até a aprovação.
— Estou convencida de que o texto confirmado no Senado Federal resulta de um acúmulo de participação social, debate e construção política, que não pode ser menosprezado. Resulta também da mediação possível entre as diferentes correntes de opinião presentes na sociedade e no Congresso Nacional — disse Teresa durante a votação do texto no Plenário do Senado, em março.
Formação cidadã
Ainda no campo da educação básica, o Senado aprovou projeto que inclui a educação política e os direitos da cidadania entre os conteúdos obrigatórios das escolas.
O PL 4.088/2023 altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) para dar maior destaque ao estudo da realidade social e política do país na organização dos currículos. Embora esses temas já estejam previstos na legislação, a proposta busca fortalecer a formação cidadã dos estudantes.
A matéria foi debatida intensamente em Plenário. Parlamentares favoráveis defenderam que a medida contribui para preparar os jovens para a participação na vida pública. Já os contrários manifestaram preocupação com uma possível sobrecarga dos currículos e com o risco de abordagens ideológicas em sala de aula.
Ainda assim, a proposta foi aprovada sem alterações e seguiu para sanção presidencial.
Expansão da rede federal
Os primeiros meses do ano também foram marcados por iniciativas para ampliar a presença do ensino superior público e fortalecer a estrutura das instituições federais de ensino. Uma delas foi a aprovação do projeto que autoriza a criação da Universidade Federal do Xingu (UFX), no Pará.
Com sede em Altamira, a instituição será formada a partir do desmembramento da Universidade Federal do Pará (UFPA) e deverá ampliar a oferta de ensino, pesquisa e extensão no sudoeste paraense, contribuindo para o desenvolvimento de uma região estratégica da Amazônia.
A proposta (PLS 359/2017), do ex-senador Paulo Rocha (PA), foi encaminhada para análise da Câmara dos Deputados.
Outro projeto aprovado (PL 6.133/2025) cria a Universidade Federal do Esporte (UFEsporte), vinculada ao Ministério da Educação e com sede em Brasília. Caso sancionada, a nova instituição será voltada à formação de profissionais, à pesquisa e à inovação em ciências do esporte, além de incentivar a chamada dupla carreira, permitindo que estudantes conciliem a formação acadêmica com a prática esportiva e tenham apoio na transição após o fim da carreira de atleta.
A consultora avalia que as duas propostas reforçam o papel das universidades públicas como instrumentos de desenvolvimento regional.
— A criação dessas novas universidades reforça que o ensino superior público, no Brasil, segue funcionando como forte vetor para desenvolvimento regional, equidade territorial e formação de quadros estratégicos.
O fortalecimento da rede federal também avançou com a ampliação do quadro de servidores das universidades e institutos federais. A Lei 15.367 criou cerca de 22 mil cargos entre professores, técnicos e analistas em educação, distribuídos entre universidades federais e a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica.
O texto surgiu do PL 5.874/2025, aprovado pelo Congresso para ampliar o atendimento das instituições e dar suporte à expansão do ensino público federal.
Valorização dos professores
A valorização dos profissionais da educação esteve entre as prioridades da pauta legislativa. A principal conquista foi a atualização do piso salarial nacional do magistério para R$ 5.130,63 em 2026, reajuste de 5,4% em relação ao valor anterior.
Além de confirmar o novo piso, a medida ampliou seu alcance aos professores temporários, tornou obrigatório que o cálculo anual do reajuste seja divulgado de forma transparente e incluiu expressamente o valor do piso na legislação.
A norma tem origem na Medida Provisória (MP) 1.334/2026, posteriormente convertida no Projeto de Lei de Conversão (PLV) 4/2026 e sancionada como Lei 15.437.
Luana Bergmann afirma que as mudanças fortalecem a política nacional de valorização docente e beneficiam as redes públicas de educação básica, que reúnem mais de 2 milhões de professores.
— O novo desenho do piso trouxe previsibilidade, proteção do poder de compra e perspectiva de ganho real continuado para os professores. Isso impacta diretamente a atratividade da carreira no Brasil, em um contexto já marcado pela escassez de docentes em várias áreas.
Outra proposta aprovada amplia as oportunidades de formação continuada desses profissionais. O PL 96/2024 assegura aos professores da educação básica da rede pública o direito de utilizar a licença remunerada prevista em lei para participar de cursos de qualificação, especialização, mestrado, doutorado e atividades de pesquisa.
O projeto altera a LDB para deixar expresso que essas atividades fazem parte da formação continuada dos profissionais da educação, reduzindo divergências de interpretação sobre o reconhecimento de cursos e pesquisas como instrumentos de qualificação.
Na avaliação da consultora legislativa, a medida cria condições objetivas para que os professores invistam no próprio aperfeiçoamento sem prejuízo da carreira.
— A proposta reforça uma agenda de políticas docentes voltada ao aprimoramento profissional permanente, especialmente em um período de rápidas transformações na educação.
Inclusão educacional
Em maio, o Senado aprovou o PL 1.049/2026, responsável por criar a primeira política nacional voltada especificamente aos estudantes com altas habilidades ou superdotação. Sancionada como Lei 15.436, a medida cria instrumentos para identificar esse público, orientar políticas educacionais e ampliar o atendimento especializado.
Um dos principais avanços é a implementação do Cadastro Nacional de Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação, previsto na LDB desde 2015, mas ainda não colocado em prática. Sob responsabilidade do Ministério da Educação (MEC), o banco de dados reunirá informações de estudantes da educação básica, do ensino superior e da pós-graduação para subsidiar a formulação de políticas públicas.
A legislação também estabelece diretrizes para a identificação precoce desses estudantes e para a oferta de atendimento educacional especializado, incluindo estratégias que respeitem suas necessidades de aprendizagem e favoreçam o desenvolvimento de seu potencial.
Outro avanço é o reconhecimento da chamada dupla excepcionalidade, situação em que estudantes com altas habilidades ou superdotação também apresentam deficiência, transtorno ou outra condição do neurodesenvolvimento. A norma ainda incentiva a criação de centros de referência e a formação de profissionais especializados.
Lurya Rocha, sob supervisão de Dante Accioly
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado


