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“Os oceanos têm papel fundamental em mitigar a mudança do clima e pagam um preço muito caro”, avalia pesquisadora

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Os oceanos, que cobrem 71% da superfície da Terra e contêm cerca de 97% da água do planeta, têm papel fundamental no combate à mudança do clima. Desde 1970, vêm absorvendo mais de 90% do excesso de calor do sistema climático e até 30% dos gases de efeito estufa da atmosfera, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).

“Os oceanos têm um papel fundamental em mitigar as mudanças climáticas e pagam um preço muito caro por fazer essa mitigação para nós, tanto de absorção do calor quanto de absorção do CO2 das nossas emissões”, explica a professora de oceanografia física da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Regina Rodrigues.

O impacto é visível: em 2024, o aquecimento oceânico atingiu o maior nível em 65 anos, contribuindo para a elevação média do nível do mar em 4,7 mm por ano entre 2015 e 2024. Isso ameaça ecossistemas e infraestruturas costeiras. No Brasil, mais da metade da população, o que representa 111 milhões de pessoas, vive a até 150 km do litoral.

Recém-chegada do Congresso Científico Um Oceano (OOSC), na França, que precede e fornece subsídios para a Terceira Conferência da ONU para Oceano (UNOC3), onde apresentou o estudo sobre eventos extremos compostos no Atlântico Sul e Equatorial, Rodrigues defende que o oceano deve ser reconhecido como fonte de soluções climáticas. A Terceira Conferência da ONU para o Oceano, que começa nesta segunda-feira (9), busca identificar e implementar soluções para desafios como aquecimento global, poluição, sobrepesca e perda de biodiversidade.

Leia a entrevista na íntegra:

Projeto Ciência&Clima: Dados da Organização Meteorológica Mundial apontam o aumento da temperatura do oceano em decorrência do aquecimento global e, principalmente, que esse processo deve continuar, mesmo com a redução de emissões. Mas por que isso acontece?

Regina Rodrigues: Os oceanos absorvem 90% do excesso de calor aprisionado no sistema terrestre devido às mudanças climáticas. Esse calor acumulado gera eventos extremos de temperatura, conhecidos como ondas de calor marinhas, que têm se tornado mais frequentes e intensos, especialmente no Atlântico Sul

Quando o oceano se aquece há uma expansão térmica. O oceano expande para cima, porque não pode expandir para as laterais e para o fundo, gerando aumento do nível do mar. Águas mais quentes ajudam a derreter as calotas polares e o gelo marinho, o que também contribui para o aumento do nível do mar. O oceano mais quente provoca essa reação em cadeia.

O calor também diminui a solubilidade dos gases na água, como o oxigênio disponível para os organismos marinhos, e afeta a disponibilidade de nutrientes para as microalgas marinhas, base da cadeia alimentar oceânica. Isso tem impactos no ecossistema, principalmente na região tropical e subtropical, onde há uma diminuição da concentração dessas microalgas marinhas.

Um outro impacto importante é a acidificação dos oceanos. O oceano absorve em torno de 30% do dióxido de carbono (CO2), o que baixa o pH da água, fazendo com que fique mais ácida.

A combinação de todos esses fatores, aumento da temperatura, acidificação, menor oxigênio e redução de alimento, têm um efeito muito negativo nos ecossistemas marinhos.

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O aquecimento dos oceanos também tem impacto na vida em áreas continental. O calor acumulado aumenta a evaporação da água do oceano para a atmosfera. O fluxo de umidade maior favorece eventos extremos maiores, especialmente na região costeira do Brasil.

Projeto Ciência&Clima: Na sua avaliação, qual o tópico mais relevante atualmente em relação à agenda de oceano e por quê?

Regina Rodrigues: Estamos em uma crise nos oceanos por causa de três fatores. Primeiro, as mudanças climáticas, que estão relacionadas com o aquecimento da temperatura da água do mar. Mesmo que as emissões sejam zeradas hoje, tem muito calor armazenado nos oceanos, o que ainda vai levar a um aumento da temperatura, da desoxigenação e todos os outros efeitos.

Segundo, a poluição também é crítica. Não só a por plástico, mas a poluição química e inclusive orgânica, como esgoto. Terceiro é a perda de biodiversidade, que está entrelaçada com os outros dois temas, mas também está relacionada com atividade direta de sobrepesca e sobre-exploração dos recursos marinhos. É difícil pontuar qual é o pior.

Diante disso, a principal ação é cortar as emissões de gases de efeito estufa e, enquanto isso não ocorre ou até termos o resultado que queremos, nós precisamos conservar, nós precisamos limpar os oceanos, ter áreas de conservação maiores.

Tem o programa da ONU ‘30×30’ [Compromisso internacional para proteger 30% do planeta até 2030, incluindo áreas terrestres e marítimas], que é fazer 30% das áreas oceânicas na zona econômica exclusiva em áreas preservadas, para conservação. Isso é importante porque uma reserva marinha não permite nenhuma outra atividade, como sobrepesca. Com isso, você dá uma chance para os ecossistemas reagirem em relação ao aumento da temperatura. Se houver o corte das emissões, no longo prazo a temperatura dos oceanos vai voltar ao normal. Mas ainda vamos ver um aquecimento maior. Enquanto isso, temos que diminuir as pressões de poluição, de sobrepesca e de exploração desenfreada dos recursos marinhos, porque isso dá um tempo para que as espécies consigam sobreviver.

Projeto Ciência&Clima: Um artigo seu publicado na Nature em abril deste ano abordou os impactos das ondas de calor marinhas no Atlântico Sul e destaca que, desde 2016, eventos compostos extremos tem se repetido. Quais os principais impactos desses eventos para o Brasil?

Regina Rodrigues: Os impactos desses eventos triplos que identificamos e avaliamos para o Atlântico Sul e, principalmente ao longo da costa do Brasil, são muito negativos para os ecossistemas marinhos. Observamos as ondas de calor marinhas junto com efeitos de eventos extremos de acidificação e de baixa produtividade primária, que é a concentração de algas microscópicas marinhas no oceano, base da cadeia alimentar. Observamos que está tendo um aumento da frequência da intensidade das ondas de calor combinadas com eventos extremos de acidificação.

Outros estudos já haviam mostrado que os ecossistemas podem se recompor de eventos extremos combinados se houver disponibilidade de comida. Por isso, olhamos a terceira componente, que é a baixa produtividade [no Atlântico Sul]. Se ocorrer a acidificação, com onda de calor, com baixa alimentação ou quantidade de alimentos, não há resposta de recuperação porque não tem alimento disponível.

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Observamos que houve um aumento bastante assustador desde 2016 [desses eventos extremos combinados]. Verificamos isso mais detalhadamente em seis regiões ao longo do Atlântico Sul, sendo três na costa brasileira. Em todos os meses aconteceu uma grande quantidade de eventos extremos combinados. Isso põe em xeque a capacidade dos ecossistemas marinhos se recuperarem.

Dados do litoral da África mostram que já teve um colapso da pesca. No Brasil, acho que ainda não ocorreu ou esses dados não foram coletados, ou pelo menos não são do meu conhecimento.

Eventos extremos é a parte só de ondas de calor que tem um impacto em eventos extremos, vamos dizer assim, é sobre a Terra Continental. E isso realmente também tem aumentado bastante. E a gente vê que que esse fluxo de umidade pode alimentar eventos extremos também de chuva sobre a região, a zona costeira do Brasil.

Projeto Ciência&Clima: Qual a expectativa de resultados sobre a Terceira Conferência do Oceano?

Regina Rodrigues: A conferência cresceu bastante. Nessa terceira edição, houve a participação de vários chefes de estados na abertura. Está chamando mais a atenção do alto nível, da política mundial. É uma mensagem sobre a importância que o oceano tem nessa configuração das mudanças climáticas, o que nem sempre foi admitido. Sempre houve muito enfoque para os eventos extremos e nos impactos sobre a Terra. Mas os oceanos têm um papel fundamental em mitigar as mudanças climáticas e pagam um preço muito caro por fazer essa mitigação para nós, tanto de absorção do calor quanto de absorção do CO2 das nossas emissões. E isso realimenta os extremos que acontecem na Terra. Cada vez fica mais claro a importância dos oceanos, não só como impactado pela problemática, mas também ser incluído para as soluções que a gente espera.

A minha expectativa é boa porque estamos avançando. O Brasil, na liderança do G20 no ano passado, puxou essa agenda e ajudou a elevar os oceanos na pauta das mudanças climáticas. Eu espero que essa conferência ajude a agenda dos oceanos na COP 30, que o Brasil está presidindo. 

Projeto Ciência & Clima

O projeto de cooperação técnica internacional Ciência&Clima elabora as Comunicações Nacionais e os Relatórios Bienais de Transparência do Brasil à Convenção do Clima. A iniciativa é executada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF).  O projeto também difunde informações relevantes com objetivo de promover a conscientização sobre os impactos da mudança do clima no Brasil.

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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MCTI defende fortalecimento da ciência e da soberania em política de minerais críticos

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Os minerais críticos vêm ganhando centralidade no cenário global. Os ingredientes invisíveis, ou terras raras, são a base material de tecnologias essenciais e viabilizam sistemas impulsionados pela transição energética e pela expansão de tecnologias digitais — de celulares a carros elétricos. O assunto está no debate central na agenda de ciência, tecnologia e, principalmente, inovação, além de ser estratégico para o desenvolvimento econômico e a soberania tecnológica do País. No Brasil, o tema avança no Congresso Nacional, com a proposta de criação de uma política nacional para o setor, citada no Projeto de Lei 2.780/2024.

A matéria em discussão estrutura uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE). A proposta busca fomentar a pesquisa, a indústria, a distribuição, o comércio e o consumo dos produtos gerados. Além disso, ela cria um Comitê de Minerais Críticos e Estratégicos (CMCE) — que ficaria vinculado ao Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM) e destinado à formulação de diretrizes com vistas ao desenvolvimento do setor mineral brasileiro.

Para o MCTI, o projeto de lei é um primeiro passo. “O projeto cria um arcabouço mínimo, mas não aprofunda essa questão”, avalia o chefe da Assessoria Especial de Assuntos Parlamentares e Federativos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luiz Rodrigues. De acordo com o ministério, a inclusão de recursos para ciência e tecnologia é um dos pontos positivos do texto, como a previsão de investimento mínimo de 0,4% da receita bruta das empresas em pesquisa e inovação. “O projeto avança ao destinar recursos para ciência, tecnologia e inovação. Não é o valor que desejávamos, mas foi o possível dentro do consenso político”, afirmou.

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O MCTI entende que o desenvolvimento pleno da cadeia produtiva exigirá medidas adicionais. “Se o projeto for entendido como suficiente, a gente continua na situação atual”, alertou Rodrigues, ao destacar que o Brasil ainda enfrenta limitações estruturais para avançar nas etapas de maior valor agregado.

A avaliação da pasta é que o projeto em tramitação deve ser visto como ponto de partida para uma agenda mais ampla. “Ele não é o fim da discussão. É o início”, disse.

Para o ministério, a futura política nacional de minerais críticos deve incorporar de forma central a dimensão científica e tecnológica, com metas claras e integração com outras estratégias de desenvolvimento. A expectativa é que, a partir da aprovação do projeto, o debate avance para novas iniciativas capazes de consolidar uma cadeia produtiva mais robusta e menos dependente de tecnologias externas.

Minerais críticos

“Os minerais críticos são fundamentais na economia digital e na transição energética, com aplicações que vão de comunicação crítica a materiais de alto valor tecnológico”, explica Luiz Rodrigues.

Além do potencial geológico, o cenário internacional reforça a importância do tema. Atualmente, a cadeia global de minerais críticos — especialmente no caso das terras raras — é concentrada. “Esse mercado hoje é fortemente concentrado, especialmente na China, o que abre uma oportunidade para o Brasil se posicionar e avançar na cadeia produtiva”, disse.

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Apesar das oportunidades, o avanço do País no setor depende de superar gargalos tecnológicos. Segundo Rodrigues, o domínio das etapas mais sofisticadas de processamento ainda é restrito a poucos países, o que limita a capacidade de agregação de valor. Segundo a Agência Internacional de Energia (International Energy Agency, IEA), a China responde por cerca de 91% do refino global de terras raras e cerca de 94% da produção de ímãs permanentes, etapa final de alto valor. “Não é só uma questão de investimento. É preciso investir em ciência, tecnologia e inovação e construir arranjos que deem capacidade ao País de avançar no processamento”, destacou.

Entre os desafios apontados estão a necessidade de ampliar investimentos em pesquisa, fortalecer a articulação com a política industrial e desenvolver modelos institucionais capazes de viabilizar o processamento no País. “Sem ampliar o investimento em ciência, tecnologia e inovação e estruturar arranjos produtivos, não será possível avançar no processamento no Brasil”, afirmou.

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

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